terça-feira, 1 de novembro de 2011



Cazuza foi um dos mais importantes cantores e compositores da década de 80, tendo sido um dos principais personagens do rock nacional que se instalou definitivamente na música brasileira a partir dali. Em sua obra, a representação da homossexualidade não se deu de forma linear e única, pelo contrário, Cazuza tocou de diversas formas no assunto, a maioria das vezes nas entrelinhas e através de metáforas, como era seu estilo.

Além de ter se assumido bissexual publicamente, Cazuza foi um dos compositores mais importantes na música popular brasileira na abordagem do tema, por tê-la feito de tantas maneiras tão distintas em mais de 10 canções durante a breve carreira, de 1982 a 1990.

1- Por que a gente é assim? (1984)

Primeira música gravada por Cazuza com referência à homossexualidade, em 1984. A canção é de Cazuza, Ezequiel Neves e Roberto Frejat e enfrentou resistência dos companheiros de banda de Cazuza para ser gravada por conta dos versos que remetiam à homossexualidade.



2- Narciso (1984)

Em seu terceiro disco como vocalista do Barão Vermelho e no mesmo ano que gravara sua primeira canção com referência à homossexualidade, Cazuza também gravou a segunda, que contava uma história de amor mal resolvido e trazia os versos: “nós somos iguais na alma e no corpo”. A música é de Cazuza com Roberto Frejat.

3- Só as mães são felizes (1985)

Fora do grupo Barão Vermelho, em seu primeiro disco solo Cazuza resolveu fazer uma homenagem a todo tipo de comportamento considerado marginal, maldito, e compôs com Roberto Frejat a música “Só as mães são felizes”. A homossexualidade aparece como um desses tipos de comportamento, e é representada através de uma citação debochada a uma das grandes referências literárias de Cazuza, o poeta beatnik Allen Ginsberg, ativista das causas homossexuais nos Estados Unidos.



4- Culpa de Estimação (1987)

Em mais uma canção sua em parceria com Roberto Frejat, Cazuza discursa sobre a culpa cristã que adquiriu ao longo dos anos por ter, segundo ele, sempre estudado em escolas católicas. A partir desse contexto ele refere-se à sua bissexualidade utilizando-se de nomes bíblicos, Eva e Adão, ao dizer-se indeciso entre o amor de um homem ou uma mulher.

5- Quarta-feira (1987)

O disco “Só se for a dois”, de 1987, marca o ano em que Cazuza fala de forma mais escancarada em uma música sua sobre a homossexualidade. Mesmo já tendo dito diversas vezes em entrevistas ser bissexual, apenas em 1987 Cazuza cantou sua opção de forma definitiva em uma música, através dos contundentes versos: “eu ando apaixonado por cachorros e bichas (....) porque eles sabem que amar é abanar o rabo, lamber e dar a pata”. A música é uma parceria de Cazuza e Zé Luiz.



6- Heavy Love (1987)

Ainda em 1987, Cazuza voltava a fazer referência à homossexualidade de forma implícita, enigmática, com os versos da música que continham quase que uma idéia de rebeldia e transgressão associada à homossexualidade: “pro nosso amor descarado e virado o mundo lá fora não serve pra nada.” A música foi composta por ele em parceria com Roberto Frejat.

7- Guerra civil (1988)

No disco Ideologia, de 1988, Cazuza lançou sua primeira canção que fazia referência clara à homossexualidade feminina. Em parceria com Ritchie, “Guerra civil”, continha os fortes versos: “freiras lésbicas assassinas”, revelando mais uma vez o modo transgressor com que Cazuza tratava do tema.

8- O Tempo não pára (1989)

Em janeiro de 1989, Cazuza lançou a música que marcaria definitivamente sua carreira, “O Tempo não pára”, parceria dele com Arnaldo Brandão, falava entre outras coisas, de uma visão sobre a forma como a sociedade costumava tratar os homossexuais à época, com os famosos versos: “te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam um país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro”.



9- Eu quero alguém (1989)

No mesmo ano de 1989, em seu último disco em vida, “Burguesia”, Cazuza lançou “Eu quero alguém”, música em parceria com Renato Rocket que fazia referência à bissexualidade através da idéia de vestimentas que tradicionalmente identificavam o masculino e o feminino, com os inicias versos: “eu quero alguém, que use calça ou saia”.

10- Como já dizia Djavan (Dois homens apaixonados) (1989)

Também em 1989, Cazuza utilizou-se do discurso de outro compositor para se referir à homossexualidade. Adotando a frase de Djavan no título e nos versos finais da música, Cazuza, como raramente aconteceu na sua obra, dessa vez foi claro em sua referência.

11- Preconceito (1989)

Cazuza também fez referência à homossexualidade assumindo o papel de intérprete, como quando em 1989 gravou a música “Preconceito”, de Fernando Lobo e Antônio Maria e que já fora sucesso na voz de Nora Ney na década de 50, já naquele momento a música era cultuada pelos homossexuais e Nora se tornou diva entre eles. Anos mais tarde, Cazuza a regravou novamente utilizando-se de seu discurso para provocar o sentido da homossexualidade.



12- Esse cara (1989)

Em entrevistas ao longo do anos de 1988 e 1989, Cazuza, que já era bissexual assumido, dizia querer explorar mais em suas músicas seu lado mais feminino. Ao gravar a canção “Esse cara”, de Caetano Veloso, em 1989, Cazuza colocava-se como mulher e expunha sua faceta mais delicada. A música vinha no disco duplo “Burguesia”, na sequência de “Preconceito” que já fora reveladora de traço homossexual na década de 50 e agora era regravada por Cazuza. A composição das músicas na sequência conceituava o sentido homossexual presente em ambas.

13- Jovem (1990)

Cazuza também tratou do tema da homossexualidade apenas como compositor. “Jovem” foi composta por ele em parceria com Arnaldo Brandão, e gravada pelo grupo Hanói Hanói em 1990. A música trazia a idéia de que a homossexualidade era perante os olhos de alguns uma coisa nova, transgressora, moderna, além disso, a expressão usada para designá-la na música é carregada de coloquialidade e deboche, através dos versos: “você tá muito avançado, seus amigos desconfiam que você é veado”.



14- Problema Moral (1984 ou 1985)

Sem data definida, a canção “Problema Moral”, de Cazuza, Roberto Frejat e Dé”, gravada originalmente por Paulette, perdeu-se no tempo, mas seus versos permaneceram resguardados. A música discursa sobre a história de um amigo que conquista a namorada do outro, e acaba se justificando com uma irônica referência à bissexualidade, além de trazer a idéia de que ainda era preciso disfarçá-la: “mulher de amigo meu, pra mim é homem, eu transo no breu”.

15- Quero ele (1989)

A canção “Quero ele”, foi feita especialmente por Cazuza e Lobão para o espetáculo teatral “Querelle”, estrelado em 1989 pela transformista Rogéria. A música conta a história do personagem principal da peça, o marinheiro homossexual Querelle, e faz referências também à quem o interpreta, em versos contundentes: “Quero Querelle e seu irmão, Quero Rogéria e seu pauzão”.



Raphael Vidigal

Parte de projeto experimental acadêmico realizado na PUC MINAS.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011



Yamandu Costa: as cordas lhe desobedecem. Incautas, prontas a insolentes provocações, por incitação tutorial. Seus doze dedos se transformam em treze, quatorze, infinitamente. Amarram-se aos trilhos do violão, descarrilados em seqüência.

À deriva, no suntuoso Grande Teatro do Palácio das Artes, na última quarta-feira, o gaúcho iniciou sua expedição com bela homenagem a Raphael Rabello, um mito da arte de trovejar violões, içando as caravelas de “Samba pro Rafa”, em magistral partida.

“Nas ondas verdes do mar”, suspirou Caymmi de cadente saudade à “Mafuá”, obra de Armandinho Gomes, que dá nome ao disco. Insurgindo em intervenção divina, arriscou-se a contrariar os donos do tempo, e espalhar os raios púrpuros do seu “Choro Loco”.

Se “os piores atos são feitos para o bem, e esse é um costume do amor”, como escreve seu conterrâneo Fabrício Carpinejar, “Elodie” despeja emoções lavadas pela espuma que declina na distância. Feita em homenagem à mulher, à espera num porto distante da França, soa revigorando os perigos da ausência, e a fortaleza de pedras do amor.

Disposto a desbravar inóspitas regiões de seu instrumento, Yamandu se aventura, monta um cavalo baio, dedica o canto à avó, entoa toda a “mística de Sarará”, em suas próprias palavras. Matuto de berço, recolhido as flores alvas do jardim de sua infância sulista, tenta acalmar o coração do filho em prantos. Em vão, somente lega a suavidade de “Bem Vindo” à platéia. Dentro ao mar em dias de ressaca, que impressiona e chantageia.

Como os ancestrais venham a lhe suprir a bússola que determina águas bravias, Baden Powell surge imponente em sua estratégia de arrastar correntes e lapidar o chão do navio, com pés que batem e se desprendem, na execução afiada de “Sambeco”. Para que o cabaré se arme e os tripulantes dancem, Yamandu chacoalha a “Suíte Colombiana No. 2 – Porro”, do capitão latino-americano Gentil Montaña.

Alardeada a presença de “Ana Terra”, personagem do romance do também gaúcho Érico Veríssimo, o violonista deixa com que o vento sugira a sensação de vozes amanhecidas, e triunfe o coro de anjos no céu suspenso.

Ao toque final dos sinos que anunciam a noite, o anfitrião, na posse dos aposentos sem cerimonial, convida o encantador das Minas Gerais, Marcelo Jiran, que surge com sua flauta prateada e acompanha as divercionices (invencionices e diversões) com o seu “Choro Classudo.” Os aplausos encobrem o marinheiro, e paira sobre o deleite a poesia “rimbaudiana” liberta em mar de trôpegos sons. Yamandu toca de olhos fechados. Decifra o enigma, Tom Zé: está “iluminando pra poder cegar.”

Raphael Vidigal

quinta-feira, 22 de setembro de 2011



Turva felicidade a de Arrigo Barnabé. Essa que se agarra às ostras, que se agarra às algas. Ainda assim, espontânea. Ainda assim, clandestina. Tal e qual uma flor de Clarice Lispector, que ao “se erguer, parece quebrar-se”.

Quando emerge do pântano, sob o relento do olhar de crocodilos, espia uma luz clara que tamborila de instrumentos multicoloridos: ali está Schoenberg, e sua escala de arco-íris sem tom.

Com o olhar de Mary Shelley, sua “pele encarquilhada, lábios negros e retos” urde o grito de Frankenstein, boca retorcida do medo, apupos e aplausos no Festival Universitário de 1979, Diversões Eletrônicas, Silvio Caldas e Orestes Barbosa sob a ótica de luminosos fórmicos.

Rufem os tambores, há uma missa a ser celebrada para Arthur Bispo do Rosário, o artista plástico, que se confundiu louco, e outra missa a ser celebrada para Itamar Assumpção, o louco que se confundiu artista, e assim sejam todas as distorções de imagem, eternas e sagradas, na extrema unção da irrealidade.

Abre-se o piano, arrasta sua longa cauda, guarda as jóias na “caixa de ódio” de Lupicínio Rodrigues, o passarinho que viu a raiva consumar o amor com as garras de um gavião. E arranha a garganta de Cássia Eller, a cantar o “Dedo de Deus”, e alivia as cordas de Tetê Espíndola, a acompanhar suas peraltices transformistas, e dueta com Ney Matogrosso, em espetáculo de androginia, Dionísio e breu do mundo.

Clarão mágico de influências rodantes: não pergunte, Skylab, quem matou nosso personagem, ouça a língua de Caetano Veloso: acrilírico. Consonantes telepatias digestivas. Mastiga, mastiga, até encontrar Arrigo, até insurgir a beleza da estranheza sem nenhum acorde, sem nenhum tom, nenhuma vogal, nenhuma consoante. Escorre o sabor de veneno. No porão, as teias trazem Tom Waits.

Do caos vem a criatura, irrestrita criatura de paz nesse labirinto. Quero “ver se você consegue me seguir neste labirinto”. Tubarões voadores, sou Clara Crocodilo. Tubarões voadores, é o terreno espírito. Tubarões voadores, de repente Orson Wells, trilhas, locuções, para todo um filme, uma única tomada, o último rife. “Pois te entender é o ato de destruir” Arrigo Barnabé.

Nascido em Londrina, compositor com formação erudita, que teve fundamental contribuição para a chamada ‘Vanguarda Paulista’, movimento que desmatizou (arredou as cores, inovou) da música brasileira, a partir de sua iniciativa teatral, inspirada em histórias em quadrinhos e no dodecafonismo, para remodelar o tom da tradicional canção.

Discos:

1980 – Clara Crocodilo (com a banda Sabor de Veneno)
1984 – Tubarões Voadores
1986 – Cidade Oculta (trilha sonora)
1987 – Suspeito
1992 – Façanhas
1997 – Ed Mort (trilha sonora)
1998 – Gigante Negão
1999 – A Saga de Clara Crocodilo
2004 – Missa In Memorian: Arthur Bispo do Rosário
2007 – Missa In Memorian: Itamar Assumpção
2008 - Ao Vivo em Porto (com Paulo Braga)


Raphael Vidigal

Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 22/09/2011.

terça-feira, 13 de setembro de 2011



Arnaldo Antunes sempre se divertiu em cena. O antídoto risonho proposto por Nietzsche para desarvorar a vida é levado a ferro e fogo por sua persona bem grata. No palco do Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico (popular Inhotim), no último dia 11 de setembro, o artista desfilou sua dança apocalíptica, sua poesia concreta e seu terno cheirando a rasgado, eucalipto saído dos quadrinhos de Batman, provável “Duas Caras”, pois bom intuitivo que é, prefere os vilões.

O desafio a que se lança com microfone às costas, óculos preto & branco, e gravata ajeitada realça a gravidade de uma música pop imbuída de pretensão e ousadia. Tanto quanto o hermetismo melódico e estrutural de suas composições mais distantes, a proximidade também discorre arquitetada em balançantes hastes de ouro.

Pois fazer música pop de qualidade é tão sublime quanto lançar distorções contra tons. No abandono de seu lar, Arnaldo convida, “A Casa é sua”, parceria com Ortinho, cantada ao ouvido do coração, em clima de multidão: “Não me falta cadeira, não me falta sofá, só falta você sentada na sala, só falta você estar...”

Antes, porém, é Adoniran Barbosa quem invoca as chamas do passado, em sua restrita contestação ao ritmo que dá nome ao disco de Arnaldo, “Já fui uma brasa”, proclama: “Eu gosto dos meninos deste tal de iê iê iê, porque com eles, canta a voz do povo, e eu que já fui uma brasa, se assoprar, eu posso acender de novo”. Sem consternação, acende o novo fogo da platéia.

“Iê Iê Iê”, a própria, é música autoral construída na companhia dos parceiros tribalistas Marisa Monte e Carlinhos Brown que brinca com o sonhado sucesso: “Visto meu casaco de couro bang bang, manchado de batom e de sangue, se você pedir eu subo no palanque, e mostro aquele passo de funk”. Em contraposição melódica, “Essa Mulher” é ácida subordinação masculina, que rebobina êxito do álbum “paradeiro” (em minúscula): “Ela quer viver sozinha sem a sua companhia, e você ainda quer essa mulher”.

Alçada a estampa de homens entregues, surgem as homenagens a Odair José, que em “Quando você decidir”, apela na voz embargada de Arnaldo Antunes: “Lembre que eu existo, meu amor”, e Lupicínio Rodrigues, urgido sob a ferocidade dos versos e da guitarra de Edgar Scandurra: “Agora você vai ouvir aquilo que merece!”.

Em ambiente mais adaptado ao verde que espalha a paisagem, “Vou festejar”, de Jorge Aragão, Dida e Noeci é embalada nos metais da voz de Arnaldo, que ora tremem, outrora reluzem calmos. Em nova idiossincrasia, realça a beleza instantânea de “Americana”, da lavra do sanfoneiro potiguar Dorvigal Dantas, reiterando o inegável talento para remodelamentos sensíveis em composições alheias.

A leveza e agilidade com que Arnaldo tece seus movimentos estranhos de corpo a sugerir coquetéis de graças é interlocução dos textos sonoros e de palavras, que em “O Que Você Quiser” se traveste de “fruto proibido, deus ou diabo”, “Invejoso”, parceria com Liminha, alimenta o pecado capital cotidiano em delícia que recheia melodia sinuosa, que transcorre do melancólico ao cômico, enquanto “Longe”, de Arnaldo, Betão Aguiar e Marcelo Jeneci, surge sob o manto de translúcida reflexão nostálgica: “Onde é que eu fui parar? Aonde é esse aqui? Não dá mais pra voltar, porque eu fiquei tão longe?”

Em derradeiro número da tarde, o mestre de cerimônia inconforme (inconformidade sem formas inabaláveis), Arnaldo Antunes, saúda os convidados com seu titânico “Pulso”, arregimentado com Toni Belotto e Marcelo Fromer, na época em que a banda ainda era do iê iê iê, deixando espatifar palavras e sons sobre o palco, belo vilão desejável que é.

Raphael Vidigal

Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 13/09/2011.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011



As lágrimas caem por elas mesmas. Nem que você queira, me levará ao centro de reabilitação. Estou na Motown. Anos 50. Negras vozes, melodias negras. Amores desfeitos na gravidade de um contrabaixo.

A tinta é uma mágoa na sobrancelha. Os cílios cortinam, mas o olhar revela. E a boca adquire o remorso compartilhado. Coração de alicate nas tatuagens. Marcas no corpo. Rouca alma.

O ritmo do blues. A batida do jazz. A batida das máquinas. O entrecortar do alicate. O balanço dos vocais. Remexendo bebidas, seringas, cabelos colados. Quietos. Esvoaçantes. Voa-se muito pela fumaça. Amy Winehouse. Assim meio perdida. Em linhas quase medíocres.

“Love is a losing game”. Eu sei. Quando a cantora apareceu, não era uma menina tímida. Disfarçava o sorriso melancólico. Mostrava a dor. A postura altiva lhe recobria os cabelos ao alto de seus pés, saias bem engomadas, maquilagem de alta fantasia.

Foi tudo de verdade. Não foi um sonho que a gente teve, como aconteceu com Cartola, já disse Nelson Sargento. Nem uma epígrafe alinhavada por Oscar Wilde, a mostrar sua alma, das profundezas. Foi tudo tão real e artístico que houve quem descambasse a querer mostrá-la como uma de nós. Com os mesmos problemas. Maquilagem borrada. Seios de fora. Cicatrizes espalhadas pelo corpo magro, lânguido e aquela voz.

Era de verdade, por mais que se queira crer que não. Que fosse mais natural e óbvio tratá-la dentro de uma embalagem. Que ela fosse negra, criada nos subúrbios americanos. A sujeira, a estranheza, a excentricidade espaireceu como gotas de poeira. Incapazes de impregnarem vestidos alvos.

A sobriedade que cobra-se dos artistas parece ser a mais absurda das realidades. Pois a fantasia daquela menina egressa diretamente dos anos 50 americanos trazia na loucura o ponto de contato com estrelas claras. Cintilantes? Gostariam de dizer. Talvez um pouco mais. A palavra cisne não expressa a brancura do vôo da ave, escreveu Patti Smith.

E todos os badulaques, tintas, acessórios, imagens não capturam a voz. A voz que só é ouvida por ela própria. E por quem tem no coração uma mágoa. Verdadeira, realizada, bem guardada. Lustrada com cuidado. Amy Winehouse colocou sua mágoa na voz. Não o contrário.

E se um dia a mágoa é líquida, não petrificada como busto estóico, por que não permiti-lo à sua cantora a imaterialidade do que é eterno?

“Minhas lágrimas secam sozinhas.” Descansam as manchetes. Resta uma voz, com tudo o que quis dizer.

Raphael Vidigal Aroeira

Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 23/08/2011.

terça-feira, 9 de agosto de 2011


O teatro de Jean Poiret chega ao olhar do público mineiro através da lente de Miguel Falabella. O ator, diretor e adaptador do texto, “A Gaiola das Loucas”, trouxe para Belo Horizonte versão reduzida do espetáculo, apresentado no Palácio das Artes nos últimos dias 5, 6 e 7 de agosto, e que por motivos estruturais teve que abrir mão do encanto e da magia do cabaré e das performances musicais dos personagens.

A peça arranca risos do público por motivos díspares. Se por um lado o humor físico e as patacoadas garantem sonoras gargalhadas, as tiradas reflexivas de Falabella merecem melhor destaque. Fazendo uso do jogo habitual de conjugar o grotesco e o suave, o ator encarna o marido do casal gay balançando-se entre o charme e a vulgaridade.

O interessante a notar é que o humor agressivo e muitas vezes politicamente incorreto de Falabella, que sem moderação, comanda a peça, jamais agride o público. A ausência de Diogo Vilela é notada, embora Sandro Cristopher se esforce, e os coadjuvantes percam o fôlego quando não contam com a presença do diretor em cena.

O cenário provocativo, recheado de referências explícitas ao universo gay, destaca-se mais como personagem do que o restante do elenco. O único número musical apresentado é dos melhores momentos da peça, numa encenação “comportada” de Sandro Cristopher. A música, a iluminação e o cenário alimentam a sensação de desejo, pela consumação irrompida. Desejo este, saciado em pequenas doses, nos números improvisados que remetem à realidade próxima do brasileiro, que entre Dilma e Alcione, se vê refletido no espelho da França, quando se percebe: o amor e o riso talvez sejam as armas contra a caretice.

Sem levantar bandeiras, porque não pensar numa mensagem implícita? Que a violência e o preconceito sejam varridos pra debaixo do tapete, rosa e com detalhes de oncinha.



Raphael Vidigal Aroeira

Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 09/08/2011.

terça-feira, 19 de julho de 2011



Não espere arroubos sonoros. Zélia Duncan canta meiga, delicada, suave, suas composições novas. Isso é o que prepara o disco. Diante da platéia a contenção das interpretações se revela desafiadora e fugaz, com leve sorriso de coragem sorrateira.

A presença de Zélia no palco é resguardada de beleza, pelo vestido de Ronaldo Fraga (o coração do artista segundo a cantora), o cenário de Analu Prestes, pinturas abstratas refletidas pelas cores de uma iluminação climática, e a simpatia da protagonista, acompanhada de perto por Ézio Filho (direção musical e contrabaixo), Webster Santos (violão, bandolim e guitarra), Jadna Zimmerman (bateria, percussão e flauta) e Leo Brandão (teclados e acordeom).

À vontade desta, dissolve-se o desdém “pelo sabor do gesto”, título do álbum lançado em 2009 que alicerça show apresentado no último dia 10 de julho no Palácio das Artes, e que rende belo número onde a cantora posiciona-se com violão ao colo e interpretação intimista.

Ao abrir a apresentação com “Boas Razões”, versão de música do artista francês Alex Beaupain, Zélia assinala a que veio, embora ainda distante fisicamente do público, já esboça o vigor e a vontade com que irá conduzir a noite. A participação de Fernanda Takai nessa canção no disco é substituída pelos vocais do guitarrista da banda. Na sequência, emenda-se a solenidade a Rita Lee, de quem Zélia é eterna devota, com a pop roqueira “Ambição”.

Mas o circo aconchegante começa a pegar fogo a partir de “Intimidade”, música de Zélia e Christiaan Oyens que lembra os primórdios do Barão Vermelho (da época de Cazuza & Roberto Frejat), um bluesy cadenciado com letra ácida e humor farpado. A cantora esparsa em rigidez malemolente os gestos necessários ao destinatário da mensagem.

Aliás, um dos pontos altos do espetáculo é a condução sonora de Zélia Duncan, que se distingue por todo o corpo com intervenções precisas de interação bem humorada e suposição ligeira de pernas e braços, que logo se recolhem ao lugar de origem.

Na super-tocada “Tudo sobre você”, a nitidez dos versos se estende ao belo arranjo, inventivo e dinâmico, onde os instrumentos retomam lembranças de festas de aniversário infantis, artimanhas de John Ulhoa, co-autor da música, produtor do álbum e segundo Zélia Duncan, maior responsável pela existência do tudo em cena, ao respondê-la em e-mail sobre o projeto: ‘xá com nóis’, brincadeira diversas vezes direcionada à platéia.

A “Felicidade” de Luiz Tatit, embandeirada pelo autor paulista como o novo mal do século em lugar da depressão, escancara tom debochado sugerido pelo sobe e desce de sobrancelhas da cantora. O que lhe é complementado pelo sorriso de lado e os questionamentos sóbrios, quase falados: “Não sei por que tô tão feliz, preciso refletir um pouco e sair do barato.”



Nada mais lhe escapa, os espaços vazios preenchidos de felicidade argumentam sem precaução nenhuma a letra propositadamente rimada de Zeca Baleiro, ao denominar símbolos de desejos amorosos da geração descartável: do “tesouro dos czares” ao “céu de celulares”, esta uma imagem perfeita ao romantismo ajambrado.

“Se eu fosse um blues, te mandava embora, se eu fosse um samba, esperava a aurora”, refina melodia e letra em parceria de Dante Ozzetti, com construção incomum de sentidos determinados pela emoção da música: do choro à valsa, da fuga de Sebastian Bach à Nona Sinfonia de Beethoven, reproduzida alusivamente à citação do verso.

O fraseado reto de “Duas Namoradas” de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, serve-se no samba deslocado de Zélia Duncan, garantindo a hibridez proposta: “Tenho duas namoradas, a música e a poesia, que ocupam minhas noites, que acabam com meus dias”. Também o “Cedotardar” de Moacyr Albuquerque e Tom Zé alcança sublime vôo na voz bem acolchoada e no arranjo dramático, com progressão paulatina ao intencional clímax em bolero: “no mais horroroso castigo....te sigo!”. A poesia é preservada em sua integridade.

“Borboleta”, gerida em comunhão por Marcelo Jeneci, Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e Zélia é ligeira e pop, e justifica-se pelo complemento da cantora: ‘um bando de marmanjo fazendo música de criança’. Um dos grandes momentos acontece à explanação em língua de sinais de “Todos os Verbos”, dedicada à fã semi-auditiva que buscou Zélia. Na procura de se abrir a esse universo tão sonoro quanto, a artista emociona em singeleza e doçura.

Na interpretação do “Tom do Amor”, nascida da descoberta do ‘diálogo de uma mãe ensinando as coisas importantes da vida à filha’, tudo em torno aconchega sutilezas, levezas, descompromissos e descontrações. Zélia flutua jardins de cores amenas, que não chegam a ser infantis, nem convidam à melancolia. É um contato que se interrompe, e o intervalo entre o espesso gesso e a liquidez da tinta é que moldura o quadro particular da cantora. Gotas que pingam devolvendo gestos, canções, palavras, afetos esquecidos em ambiente que se tornou cheio e duro. A composição é dividida com Paulinho Moska.

Sem esconder as ironias, Zélia canta uma desconhecida de Roberto Carlos, “I Love You”, e outra dedicada aos corações esperançosos, “Por isso corro demais”. Já no final, “Flores”, de Fred Martins e Marcelo Diniz combina poesia e energia na medida incerta pretendida: “Flores para quê? Flores para quando tu chegares, flores para quando tu chorares, uma dinâmica botânica de cores.” E o visual recebe mesmo duas flores artesanais.

O bis recheado de sucessos, “Catedral”, versão para música de Tanita Tikaram, e “Alma”, de Pepeu Gomes e Arnaldo Antunes, ganha coro ‘afinado’ da platéia, segundo a própria cantora e motivação elevada, fechando em altos tons as sonoridades decifradas em luzidias miniaturas.

Zélia não está se poupando, não deixa de ser enfática, destemida, apenas descobriu outra maneira de encarar a vida: sorrindo ao invés de gritando. Não escondida, mas aparecendo para quem quer ouvi-la. Não há nesse gesto a passividade, mas o saboreio de uma comida muito mais palatável ao devaneio de nuvens que tempestades.



Raphael Vidigal Aroeira

Publicado no Jornal "Hoje em Dia" em 12/07/2011.

segunda-feira, 27 de junho de 2011




O mote é samba. Mas o sotaque é de Calcanhotto. Em álbum recheado de dedicatórias, Adriana não presta homenagem. Isso porque recusa a nostalgia para apresentar salutares desvios nos quais ambienta suas composições, com coloquial destreza para o inusitado.

Um dos que recebe menção honrosa na contracapa do disco é Jards Macalé, outro iconoclasta da canção brasileira. Aliado a ele vem Lupicínio Rodrigues, chamado tão intimamente de “lupi” que merece registro a maneira descompromissada com que Adriana se enverga do “micróbio do samba” dito pelo inventor da dor-de-cotovelo para dar nome à 12ª obra de sua carreira fonográfica (exceção à coletânea “Essencial” lançada em 2010).

Acompanhada em todas as faixas por Alberto Continentino no contrabaixo e Domenico Lancellotti na bateria e percussão (por vezes invertendo a ordem – ou seja – percussiva bateria e batida percussivista), Adriana começa sua saga rumo ao ritmo surpreendendo, como lhe é de seu fetiche nada usual em tempos demasiado óbvios.

Quem procura o tal micróbio do samba precisará de refinada lupa para encontrá-lo. Sim, pois os instrumentos presentes no álbum são tão inesperados quanto usar uma lupa para encontrar micróbio. E soam, além de criativos, agradáveis, dispensando a invencionice barata de grupos indie saídos em última fornada. A se notar o fato de que o som base é comandado por instrumentos elétricos tão rechaçados em ‘tempos idos’ (diria Cartola), sob a pretensão de defesa das raízes analógicas aqui instauradas pela miséria do povo.

Não se exclui o novo para abrigar o antigo. A riqueza com que Adriana desperta os olhares, ouvidos e gestos de sua matéria-prima é notável. Adriana lida poesia. Retira de cada sonoridade e palavra tudo o que podem oferecer em largueza e amplitude. Os sentidos deitam-se abertos ao deleite individual. Na primeira faixa, “eu vivo a sorrir” (assim grafadas minúsculas todas as palavras do disco), há exemplos que se cruzam soltos, envoltos pela atmosfera típica do samba (fadado fado; acaso caso). O que passará desapercebido por aqueles comprometidos com as verdades estáticas de uma vida mais maleável do que se lhes apresenta. Sem fazer pouco caso, Adriana e um de seus comparsas riem ao final.

“aquele plano para me esquecer”, brinca com contrastes, novamente: seu plano para me esquecer, esqueça, vaticina. E comporta a beleza rítmica do samba, sob os toques de um piano velejado aos dedos irreverentes de Calcanhotto. O clima revanchista e rancoroso, presente na terceira faixa, enclausura com propriedade a guitarra vertiginosa tocada por Adriana. “pode se remoer”, expõe no título do que se trata. E ainda remodela palavras, mantendo a sonoridade e o sentido primordial, como no caso de ajuizar/ajoelhar substituídas uma pela outra em versos, de resto, idênticos.

“mais perfumado”, oferecida à Thaís Gulin, enaltece o amor incondicional que se sujeita a provações inaceitáveis para muitos. O homem que trai é temática comum no mundo do samba, a mulher que mais do que desconfia, sabe, é mérito da lavra de Adriana. A música conta ainda com a “luxuosa”, como destacada pela própria cantora no encarte, participação de Davi Moraes e sua viola morna, que inaugura o sentir buliçoso do álbum.



“beijo sem”, já lançada com sucesso por Marisa Monte, e oferecida para ela mesma, põe à prova o canto narrativo e lento de Calcanhotto, como a sombrear palavras e requerer sons. É também faixa mais expansiva e menos interiorizada que as anteriores, abrilhantando o mosaico (como a obra de Leonílson – “Puros e duros – Ouro de artista – Ilusões”).

“já reparô?” permanece no tom da mulher que se coloca em primeiro plano, e ao invés de lamentar, se vangloria e provoca: a sua nova namorada, querida, pode ser linda e safa, (...) porte de gazela, olho de leoa, ser muito versada e hábil com a língua, do tipo que domina idiomas, mas ela não samba...”. E frases de conotação determinista: “o amor é o hiperquântico, e eu devo lhe fazer falta numa dada hora”. A ironia se estabelece, sem fazer concessões. Rodrigo Amarante pontilha generosamente solos de guitarra.

Outra canção com título questionador “vai saber?”, lançada e oferecida para Mart’nália, marca o ponto do disco em que o samba se esgueira com mais focinho tradicional. A se reparar o fato de Adriana tocar cuíca nessa faixa e caixa de fósforos na seguinte, “vem ver”. Numa, o rejeitado que sente raiva e ameaça o troco, noutra, o mesmo personagem, com a promessa de fazer de tudo para reconquistar o tal amor (perdido ou encontrado).

O chorístico cavaquinho de Davi Moraes, introduz a seara carnavalesca iniciada com “tão chic”, onde a sutil pronúncia de Adriana tem papel fundamental para a percepção da diferença em versos “si” e “se”. Nessa música, um exercício de cinismo com a eternidade, do “amor eterno até a quarta-feira”, sinalizando tom debochado com relação à festa. Na seguinte, “deixa, gueixa”, uma alegria exaltante em ritmo de bandeja de chá tocada por Adriana, em alusão ao objeto referido na letra. Com sagacidade, a faixa ganha coro de bloco e torna mais intimista a música, que vai do Ocidente ao Leme, dedicada para Hiromi.

No fim, “você disse não lembrar” é sensível composição bem aclimatada ao tempero tradicional do samba, enriquecida por toques de faca e prato de Moreno Veloso, que traça um caso de amor quase desfeito. “tá na minha hora” sinaliza o intento da autora dos versos, como síntese do trabalho feito: “despi as suas fantasias devagarinho, da sua onipotência tratei com jeitinho, e das chegadas de madrugada, no sapatinho, agora tá na minha hora...”.

E despede-se, erguendo a bandeira de sua Estação Primeira de Mangueira, inspiração para as cores que se destacam na belíssima capa do disco, via arte de Luiz Zerbini, Fernanda Villa-Lobos e Caroline Bittencourt. A “moça dos agudos de cristal”, que despertou o fascínio do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu em 1989, segue sua sina quebradiça de pérolas e diamantes. Com caminho livre para os rubis, em meio às pedras.



Raphael Vidigal

quarta-feira, 15 de junho de 2011



Há um fato não desvelado sobre recente obra do autor mineiro Luiz Ruffato. Na verdade, dentre muitos, há um que me salta especificamente aos olhos, aparentemente de relevância questionável. É possível que isso nem tenha passado pela cabeça do autor, mas o seu protagonista guarda outra interseção com a realidade além de também ter nascido em Cataguases. Sérgio de Souza Sampaio, o Serginho, é homônimo de primeiro e último nomes do compositor esquecido que estourou com o hit “Eu quero é botar meu bloco na rua”, e depois desapareceu no olhar obscurecido do grande público.



Sérgio Sampaio, o fictício, empresta seu pequeno relato através da pena ágil de Ruffato para dar vazão a uma realidade ampla e aberta que se revela pelas pequenas considerações feitas através de discurso casual, ingênuo, quase discreto, misturando assuntos a outros num ritmo acelerado, mas de natureza contida, se limitando aparentemente a abarcar a pequena condição de um jovem desempregado que vê a vida desmoronar por problemas comuns do cotidiano, nada de grandes questões reflexivas sobre a filosofia humana, “apenas” a perda do emprego e a “idéia fraca” da companheira que ele engravidou por “acaso”.

Aliás, um dos trunfos da narrativa de Luiz Ruffato é apresentar questões complexas sob a cortina da casualidade e do emaranhado de circunstâncias em que as pessoas se envolvem sem tomarem consciência da proporção exata que ela adquire. O compositor Sérgio Sampaio também usava dessa artimanha, misturando sua narrativa pessoal com fatos cosmopolitas e provincianos, como, por exemplar, ao declarar o sentimento que o envolveu, na música Muito Além do Jardim: “nosso amor morreu tão cedo...durou o tempo exato da agonia do Tancredo.” Se valendo da realidade explícita e escancarada e de idéias que estão além do campo da objetividade, muito além do jardim.

Pois a história que Ruffato propõe vai muito além da distância entre Cataguases e Lisboa que Serginho tem que percorrer para fazer seu caminho. Na verdade essa travessia dá-se através de linguagem e do emprego de observações peculiares sobre um universo íntimo que depõe contra questões universalistas. Todo o tempo a grande preocupação de Serginho é se inserir em uma sociedade onde ele desempenhe papel de destaque, sendo reconhecido por seus feitos ou ainda pela simples aparência deles. E aí está a grande chave do mistério: a “aparenciabilidade.”

Para Cleópatra não é necessário ser honesta, basta parecer honesta, diria o outro filósofo desconstrutor para construir essa nova visão que detém a pós-modernidade, cheia de desreferencializações por conta de suas múltiplas referências, instaurada num ciclo de consumo que subjetiva a ela própria e oferece a total liberdade para ser incoerente. A fragmentação dessa nova era cheia de pólos para se agarrar e camadas flexíveis, aparece representada na narrativa de Ruffato que se descola sem considerações solenes de uma visita a uma prostituta apaixonante ao histórico de guerra do velho que recebe visitas pornográficas, sendo o cunho sexual irrelevante no link. À essa maneira, ele aborda questões relativas à nossa sociedade: a competição mercadológica e principalmente o que as pessoas precisam fazer para supostamente “vencer” nesse meio, o preconceito com o diferente que acaba se equiparando à massa para sobreviver, as dificuldades de relacionamento e os desvios emocionais que se incutem nesse processo.



Outra celebridade desconhecida e exótica da cidade de Cataguases é a cantora masculinizada e perseguida por seu estereótipo híbrido pela ditadura, Maria Alcina. Ainda na década de 60, ela se notabilizou pelas largas fantasias e pelo linguajar de superfície chulo, mas de essencialidade rica, ao resgatar do folclore nordestino toda a malícia reprimida do povo brasileiro naqueles tempos, com verdadeiras pérolas do quilate de “Bacurinha” e “Prenda o Tadeu”. É por essas fantasias, palavras grifadas que podem arrefecer os sentidos como sendo de significação baixa que Serginho vai aos poucos se enraizando na pátria que nunca foi dele, substituindo os cacoetes antes presentes em sua interiorana e pacata Cataguases pela agressividade com a qual tem que se confrontar em Lisboa. Ali é o estrangeiro que precisa se inteirar do código para ser aceito. Algumas dificuldades vividas fazem parte, de certo modo, da própria biografia do autor, obrigado a dormir e tomar banho em rodoviária, ser pipoqueiro, balconista e torneiro mecânico, dentre outras profissões, antes de se consolidar como jornalista e escritor de sucesso no Brasil e na Europa (traduzido para várias línguas: italiano, francês, espanhol).

Logo na abertura do livro, Ruffato faz uma brincadeira que “parece” séria. Inventa a naturalidade da história ao prescrever que aquilo é relato “minimamente editado” ocorrido em tais lugares, a tal dia e hora. Tudo se passa de forçar a imaginação a ser oferecida “à vontade”, escancarada em sua falsificação quando comparada com uma pretensa veracidade que é propositalmente exagerada. Trata-se de questionar o jogo da representação e apontar essa crise oriunda do esgotamento dos temas. O fim da originalidade e da criação. Ou seja, não há como representar uma realidade que a princípio se propõe sem amarras e totalmente solta em sua pós-modernidade, instaurada, entre outras coisas, pelo fim dos meta-discursos coercitivos e assegurados.

Outro artista pródigo em exaltar essa crise foi o surrealista e catalão Miró, vizinho da Lisboa onde desembarca o personagem de Ruffato, que através de suas curvas coloridas precedidas por telas quase totalmente brancas ou queimadas, entremeava vários discursos dissonantes e amplificados, que poderiam formar afinal, uma unidade indivisível, mas ainda assim, fragmentada. O autor também entremeia várias histórias com cortes bruscos, dando o paladar da oralidade na fala.

Encomendado pela Companhia das Letras para fazer parte da coleção Amores Expressos, que pretendia relatar o amor itinerante através das narrativas de diferentes autores por várias cidades, Ruffato solicita ao leitor a percepção de um amor implícito que se esquiva do contato, que é o não direto, o não alcançado, não terminado, e, portanto, aberto a possibilidades. O fim não conclusivo que define uma única decisão do protagonista, a de voltar ao vício que ele abandonara no inicio do livro, deixa no ar uma fumaça reflexiva sobre os caminhos da linguagem e a sua impregnação quase que obsoleta ao imagético, lembrando um pouco uma música do antecessor bossa-novista Lúcio Alves, também de Cataguases, que cantava: “de conversa em conversa você vai arranjando um meio de brigar, de palavra em palavra você está querendo é nos separar”.

As palavras de Luiz Ruffato têm mais o sabor da interrupção fragmentada que alcança o olhar do outro lado, que da continuação que se conforma e se consome em sua esfera limitadora. A Cataguases de Serginho não é a destinação à Lisboa. É a imagética necessidade desanuviada da pós-modernidade.



Raphael Vidigal Aroeira

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Se mil vezes me perguntarem quem sou, direi: Adélia Prado
Se mil e uma, direi: Rubem Alves




Trôpego em seus passinhos diminutos dos quais debochará mais tarde, vem com mansidão. Desmancha a fragilidade a impressionante voz que encerra quaisquer perspectivas de “últimas apresentações”. Lúdico, lúcido do porte de seus 77 anos ele alquimera (misto de alquimia e quimera) as imagens de velho triste e velho criança, que conclui caixa de ferramentas e brinquedos e com Deus explica as erotizações da fruta pudica maçã e a fruta obscena caqui.

Choro dos corações entrecortados em Hiroshima, onde foram plantados os caquizeiros a vida triunfa sobre a morte, e vítimas fatais se chocaram com a capacidade destrutiva humana: “O mundo é maravilhoso, mas os homens são terríveis. Os homens e as mulheres.” Não discrimina. A vida triunfa sobre a morte. Vaticina.

“Aforismo é um raio que cai na Terra e destrói uma rocha. Nietzsche é o homem transbordante. Os marxistas são uns chatos. Marx é maravilhoso de ler sob culinária. O dono da panela. Os risos da platéia. Movimentos coordenados pela fala; alegria sem objeto, sem prazer. O prazer precisa do objeto. A alegria da lembrança.” É uma graça prestar jornalismo com tantas aspas; nesse caso.

A ironia é tão doce e fere com o riso aberto. Fará pior a seu inimigo tratando-o com cordialidade, sintetiza certo Oscar Wilde pouco ensinado em escolas de ensino básico. E o basicismo que ataca as escolas é ironicamente exposto pelo conhecimento de passo trôpego: “Academia de Letras é uma bobagem. Meu amigo Moacyr Scliar, do qual muito sinto saudade, fez a maior bobagem em aceitá-la. Mas suas histórias são uma delícia. Tanto quanto as de outro escritor genioso do qual o autor dessas linhas não se lembra o nome e que se sentiu honradíssimo em ter sua obra servida de argumento para o vestibular. Acontece que ao tentar responder as questões feitas pelos acadêmicos sobre seu texto e publicadas num jornal, errou todas!!!”

Como é possível destruir uma poesia seguindo os rigores técnicos exigidos pelos avaliadores. Discursa todas as linhas de Cecília Meireles sem nada saber sobre elas. Recusa a musicalidade e se perde todo o contato com a camada espessa da veleidade. Velas de Cecília Meireles. Para entendê-las, é preciso cantar. O canto que está entre as linhas, “nos interstícios”. Ele brinca as palavras. Falta ensinar sobre os livros o prazer de ler um livro. Um livro não serve para nada. Uma música não serve para nada. Uma poesia não serve para nada. Falta ensinar a brincar com elas. Prazerosamente.

“Não se pode ler Mario Quintana de cara amarrada. Um brincalhão. A poesia de Mario Quintana é toda infantil.”

Bandeiras e lutas erguidas com o braço operado e fremes inquebrantáveis de sagacidade: propõe o fim do vestibular; fim do academicismo pernóstico; e expõe idéias em pouco mais de uma hora diante de absortos admiradores que o engrandecem ainda mais com perguntas pouco inspiradas das quais ele é capaz de tirar mel de abelha sem raiva: a resposta para um texto não é uma análise, é outro texto.

Diante de Rubem Alves, Palácio das Artes.

Raphael Vidigal

sexta-feira, 15 de abril de 2011




As águas de Itapemirim deram ao mundo um Rei e um fora da lei. Um médico e um monstro. Cachoeiro, no masculino, maturou a seleção natural entre aquele que seria quase unânime em agasalhar corações maternos e o que exacerbava feminilidade na postura prática. Pernas cruzadas, cabelos longos e negros como lágrimas ou labirintos, boca embicada à espera de um batom corrosivo vermelho que pintava seu nome nos encartes dos discos: Sérgio Sampaio. O outro prescinde apresentação, Roberto Carlos.



Sob a égide do Espírito Santo, ambos nasceram regidos por Marte, o elemento fogo e o signo de Áries, nas datas de abril cujo simbólico animal é o carneiro. Mas o misticismo esteve longe de enclausurá-los, embora presente, e se fizeram lobo em pele de variados gêneros. O rock foi a matiz inicial. Enquanto Roberto empunhou sua guitarra italiana, carros explosivos e mil e uma namoradas, Sérgio foi pela trilha provocadora a que um amigo baiano o apresentou, com sessões das dez num cinema espinafrado. Raul Seixas conduziu Sampaio. O irmão de sobrenome, Erasmo, foi o grande comparsa do amigo Carlos.



Sérgio caminhou deslocado. O assombro a que persegue o monstro e avilta a própria integridade crava marcas de lucidez plebéia no rosto irônico e fundo. A poesia intrincada e cáustica de vidros mastigados (Kafka e Augusto dos Anjos; homenagem louca a Torquato Neto) expele sangue limão, misturando o extremo coloquial palpável à sórdida opacidade. A musicalidade de violão inquieto e agudo preserva os estouros do fox, a morosidade dolente de uma harmonia retalhada por raízes perenes, a espontaneidade do samba patriarcal e a gravidade do samba-canção, a quem deve os louros para Orlando Silva, Sílvio Caldas e Nelson Gonçalves.

Roberto caminhou ao centro. As luzes medicinais acompanham os trejeitos de galã do Rei que sabe impressionar, conquistar e cortejar seu povo. Com um sorriso esperto que mais tarde se dará maduro, poesia dita no pé do ouvido e sofisticação de arranjos. É o médico que amacia as dificuldades e apresenta a cura para os problemas ocasionais e preocupantes. Para tudo há uma dose de sua canção. Ele está no comando aclamado.



O desajeito existencial do monstro é asfaltado pela colocação pertinente do médico. O Rei dá as respostas. O fora da lei pergunta. A pergunta é incômoda e a resposta, em geral, conforta. Um cristaliza; o outro, turva. Sérgio era fã de Roberto Carlos. A criatura que busca abalar as estruturas do criador, impassível em sua afirmação. E o homem que busca ferir Deus, referência explícita a quem reverencia no questionamento. “O Caetano rebolava e fazia de tudo pra chocar João Gilberto, então é isso, a gente tem que chocar os ídolos da gente.” Cazuza

E por essa linha, Sérgio se embicou (tal qual um Garrincha habilidoso) por esses cantos da vida e lá ficou. Pagou preço caro enquanto Roberto permaneceu eterno, jovial e gratuito. O médico e criador para quem a criatura dedicou um velho blues pedindo para cantar sua música, pois não sabia fazer romances (“E até o nosso calhambeque não te reconhece mais, eu trouxe um novo blues com um cheiro de uns dez anos atrás, e penso ouvir você cantar”). Um monstro de aparência feia, desidratado e infiel, que se orgulha de ser mentiroso, e que arrastou sua garganta cortada nas calçadas sujas de um mundo independente, inesperado e inóspito. Um mundo próprio alheio a determinadas leis de Estado que o Rei promulgou, com sua voz cirúrgica capaz de emocionar os corações menos abaláveis e empolgar os nervos mais sóbrios.



“Sei como dói meu amor de poeta”, agoniza a Real beleza de Sérgio Sampaio. “Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer”. As curvas da estrada de Santos que propagaram Roberto Carlos. “Que eu estou no paradeiro dessa gente. Quem morreu? Quem teve medo? Quem ficou?”, duvida Sérgio Sampaio. “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, você tem que aprender a ser gente, e o seu orgulho não vale nada”. Garante Roberto.



Ávido por melancolia suspira Sampaio: “Eu guardo seus dias de chuva dentro de mim”, relegado a um posto por inadequação, muito inédito e contemporâneo. “Não adianta, nem tentar, me esquecer...” orgulha-se Roberto Carlos, e toma posse assumindo o romantismo e a Jovem Guarda, repetido e consagrado. O criador teve trajetória larga, bem planejada. A criatura esbandalhou-se perdida sempre à procura. Veio sofrida, efêmera e duradoura pela beleza que guardam os instantes de iluminação. Não se pode afirmar que se foi. Ainda habita, e lateja, mesmo assim, esporádica. O Rei recolhe flores no jardim das vaidades.




Eu quero é botar meu bloco na rua (marcha-rancho, 1972) – Sérgio Sampaio



Com sua loucura lúcida, como disse Lygia Fagundes Telles de Caio Fernando Abreu, Sérgio Sampaio criou uma das mais emblemáticas canções de carnaval de todos os tempos. Em meio à ditadura militar que se instaurara no Brasil, o compositor capixaba, tido por muitos como maldito, dá uma aura lamentosa à festa popular mais famosa do país, ao entoar versos confessionais em tom melancólico, emendando logo na sequência o refrão esperançoso que garantiu o sucesso da canção: “Eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, botar pra gemer...”. Além do conteúdo sexual abordado no refrão há também referências ao uso de drogas, tudo feito com muito deboche, misturando tristeza e alegria e dando seu aval definitivo à festa máxima brasileira: o carnaval.

Raphael Vidigal

quinta-feira, 14 de abril de 2011



Quando Elis Regina visitou Rita Lee na cadeia, grávida e presa por porte de maconha, o gênero considerado movimento por alguns, tropicalista, moveu acorde importante na história da música brasileira.

Anos antes, no meio da década de 60, Elis havia liderado passeata da classe dominante artística (laureada MPB pela crítica especializada) contra a guitarra elétrica. Um dos convidados mais ilustres do protesto era o ainda nem tão doce bárbaro, Gilberto Gil.



O músico baiano tocaria uma semana depois ao lado daqueles dois meninos e uma menina que representavam para Elis a degradação da cultura nacional em decorrência da invasão estrangeira (decantada por Noel Rosa em 1933, “o cinema falado é o grande culpado da transformação...”).

Elis Regina não era doce de coco qual Jacob do Bandolim, outro que combatia a iconoclastia simbolizada para ele no “delicado” de Waldir Azevedo, mas virou “doce de pimenta” de Rita Lee, personagem que rege o fio condutor do documentário afetivo dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, fã do inventor de uma das mais expressivas bandas do rock brasileiro: Os Mutantes.



LÓKI, a vida de Arnaldo Baptista, inicia-se pintando uma tela branca, ausência permanente que aos poucos ganha contornos coloridos. Rita está sempre presente, embora não preste depoimento. É ela a menina de olhos claros que vira o outro amor, “a transmutação do amor”, nas palavras do homenageado.

A relação dos sentimentos se destaca na condução da cinebiografia de Arnaldo Baptista, imprimindo marca de que toda sua obra está espessamente ligada à conflituosa travessia humana que ele percorre. O artista é sua arte. É essa a constatação do diretor, e, portanto, aspectos teóricos e técnicos são menos importantes de serem exprimidos nessa primeira produção cinematográfica do “Canal Brasil”. Tudo aparece nítido na conturbada vida pessoal de Arnaldo, tentativa de suicídio e internações.



As experiências do amor e das drogas acabam gerando uma espécie de loucura entendida pelas vozes uníssonas que proclamam Arnaldo como um gênio incompreendido em sua dimensão, ao extrapolar as barreiras da percepção territorial e “lúcida”. Questiona seu irmão e ex-companheiro de banda, Sérgio Dias: “Quem é louco? A gente ou Van Gogh?”. E o que parece é que Arnaldo sempre ultrapassa limites, primeiro ao incorporar a essência tropicalista (acusada por Jards Macalé de ter sido cooptada pela indústria e assim perdido o sentido) e dar cara ao rock brasileiro, depois ao ser reconhecido fora de seu país (por nomes como Kurt Cobain e Sean Lennon), e tangendo todo esse comportamento agressivo, ao absorver uma atmosfera essencialmente sensível e fragilizada diante dos acontecimentos humanos.



Explica Zélia Duncan, escolhida para substituir Rita Lee na formação contemporânea dos Mutantes (no coração de Arnaldo, a escolhida é outra): “não adianta ele ser reconhecido se ele não sentir esse reconhecimento”. E é sentir que Arnaldo parece buscar o tempo todo, seja via antropofagia (segundo Lobão “nome pernóstico para reproduzir a Semana de Arte Moderna de 22”), ou via regurgitofagia (expressão cunhada por Michel Melamed), ao expelir as entranhas sentimentais que lhe causam aflição.
As performances de Arnaldo, que sempre foram fruto de uma mente questionadora e um coração sem resposta, guiadas por espírito irônico e literalmente alucinado (o ácido é debatido sem definições morais), são esteticamente produzidas na tela em cor amena, bastante percorrida por romances menos sofisticados. O modelo adotado conserva uma materialidade menos complexa de ser digerida, com poucos contornos que não beirem de fato uma linha.



O que não faz jus ao histórico estético de Arnaldo Baptista, que ao incorporar novos elementos a um rock tipicamente nacional, explorou com extravagância as mais diversas cores que nossa aquarela nem tão brasileira assim podia despejar. O quadro que ele pinta durante o documentário é prova disso. A prova mais cabal de todas é sua música, que ao longo da peça embala as mais exóticas faces de Arnaldo (mímico, retórico, melancólico, infantil), nem sempre obedecendo a aspectos cronológicos, mas pontuando a vida de um artista resgatado de sua profundeza em corpo e alma. É a balada do louco: Arnaldo Baptista ressurge, e pode voar.



Raphael Vidigal

terça-feira, 28 de dezembro de 2010


A boca seca e os velhos olhos vermelhos voltaram de vez?
Não, porque sempre estiveram aí. São mais antigos que a ressaca de Capitu e a discussão já solucionada por Clarice Lispector sobre quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha.
As drogas quase sempre fizeram parte da história do homem. A origem da maconha data de 2723 a.C., segundo registros da Farmacopéia Chinesa, tendo chegado na Europa por volta do século XVIII, assim como no Brasil, de acordo com documentos referentes à época das Capitanias Hereditárias.Da mesma forma, as drogas também fizeram parte da vida e obra de artistas importantes e por vezes fundamentais na história da arte.

Difícil imaginar o comedor de batatas Vincent van Gogh sem seu absinto amarelo. Difícil imaginar o infernal Rimbaud sem a fada verde. Os ácidos André Breton, Miró e Salvador Dalí sem a persistente memória do haxixe. E o que seria do sangue de poeta de Jean Cocteau sem o diabólico menino ópio? O uivo da Geração Beat colocaria o pé na estrada sem o almoço nu de LSD? Jimi Hendrix e Jim Morrison abririam as portas da percepção de William Blake? Janis Joplin se tornaria uma heroína? Charles Baudelaire sentiria o perfume das flores do mal? Hunter Thompson conheceria o Dr. Gonzo sem piteiras e mescalinas? Truman Capote sem seu bonequinho de luxo uísque teria música para camaleões? Nelson Rodrigues escreveria sobre a vida como ela é sem tabaco? Os hippies superariam a repressão sexual descrita por Freud sem seus alucinógenos? E os jovens brasileiros em tempos de AI5? Se expressariam?

Jamais saberemos. O que sabemos é que se fez arte através de ou também pelo uso dessas substâncias. Sabemos que o reggae sem a erva natural e Bob Marley encontrou seu Ponto de Equilíbrio em Natiruts e Manitu (um mundo que só quer te ver sorrir). E que Lucy continua no céu com seus diamantes e John Lennon.
Saindo do campo das artes, e retornando ao pai da psicanálise, haveria divã sem cocaína? E os sonhos? Alguém os interpretaria? E da revista Veja sem a luta pela vida de Fábio Assunção, o que seria? A polícia do Rio de Janeiro (para pegar o maior expoente do movimento) sem o tráfico de drogas, pra onde iria?
A questão é complexa, e é por isso que uma visão simplista e ingênua como a que por aí circula nas bocas molhadas de alguns cidadãos brasileiros deve ser rebatida, e mesmo que eles não queiram, debatida.

É incrível como que sob a voga da grife Tropa de Elite as pessoas aderem à visão de uma polícia que é instruída a pensar que o consumidor final da droga é o grande financiador do crime.
É tão simples dizer que aniquilados os consumidores acaba-se o tráfico como pensar que sem carros nas ruas não haveria mais poluição nem acidentes de trânsito. Os fatores são múltiplos e fazem parte de uma rede que envolve tantos outros elementos.
Mas o pior desse tipo de pensamento é o fascismo que apóia o saco plástico e vê graça no cabo de vassoura, é uma sociedade cronicamente inviável e conservadora que grita: “joga bomba na favela!”, e se estende : “nos playboys também!”
Pois bem, a exemplo dos heróis da Marvel, Capitão Nascimento, El Justiciero (tcha tcha tcha, diriam os Mutantes) das telonas vem ao mundo para cumprir sina messiânica e fazer nascer de novo os “cidadão meliante”. Ele é um homem que honra seu sobrenome e torna-se El gran ídolo da garotada, fazendo discípulos violentos e intolerantes. Pessoas que clamam por paz debaixo do céu e da terra.

É acreditando nessa didática da colher de pau, mais sofisticadamente, justiça com as próprias mãos, que perpetua-se uma guerra cadavérica centrada numa moeda única de dois lados, o de quem reprime e o de quem vende a droga. Como Romeu e Julieta, um não vive sem o outro, e assassinam-se diariamente sem perceber tratar-se de uma ação mútua.
Exatamente por essa questão, que a discussão acerca de todas as drogas, mas centrada principalmente na maconha, deixou de ser sobre os efeitos que acomete o indivíduo que a consome e passou a ser sobre o efeito que consome a sociedade que a comete, já que é crime.
Para alguns o Brasil ainda é o país do Ame-o ou deixe-o. Assim sendo, sob essa visão criminosa que o problema ganhou, os legalistas de plantão repreendem o uso da maconha com a Constituição Federal nas mãos, agindo de maneira tão veemente como quando dirigem seus carros logo após saborearem aquele delicioso bombom de licor holandês.

O problema maior é o glamour e a conveniência. Pois pecados menos originais como adquirir ingresso na mão de cambista, usar falsa carteira de estudante e comprar filmes e CDs piratas não são vistos da mesma maneira pelos mesmos olhos não vermelhos. Trata-se de um ambiente muito pop para a marginalizada maconha. A ilegalidade garantiu-lhe status de subversiva, atrelando seu uso à violência, ao contrário do que acontece com os brega-chiques cigarro e cerveja. Júlio Bressane, Cleópatra e Nietzsche não entram em Hollywood, a não ser sob vaias ou então chorando.
Pois Veja só você que a edição da revista que traz um anti-comunista Barack Obama na capa, informa que a proposta do falecido Nobel de Economia Milton Friedman, defendida na década de 70, volta a ganhar força na ONU perante o inquestionável fracasso do “mundo livre de drogas” proposto em 1998, a legalização.
A proibição em algumas cidades da Marcha da Maconha não impediu que Fernando Henrique Cardoso, e César Gaviria, ex-presidente da Colômbia, fossem taxativos ao afirmar que as políticas de combate ao tráfico de drogas na América Latina não funcionaram.

Outra alegação em favor da descriminalização da maconha proposta pela comissão encabeçada pelos dois e composta por outros ex-presidentes da região, é a de que o usuário de maconha deve ser tratado como doente, não como criminoso, pois trata-se de uma questão pertencente à esfera da saúde pública e que migrou para a violência urbana. Mas não é só isso, eles admitem os danos que podem ser causados pelo uso, e inferem que é necessário concomitantemente com a descriminalização, um conjunto de políticas de prevenção, como o atendimento assistencial com o intuito de reduzir os riscos de overdose, AIDS e outras doenças.
No cinema, quando se decide a classificação etária de um filme divide-se os critérios para encaixá-lo naquela categoria, como sexo, drogas e violência. Drogas e violência possuem uma categoria individual cada. No Brasil a proibição as coloca como farinha do mesmo saco.
Seguindo o raciocino de FHC na revista Veja, dessa maneira os governos poderiam taxar e regulamentar o comércio, tirando-o das mãos dos traficantes e diminuído a violência associada à disputa por mercados consumidores. Com esse dinheiro, financiariam programas de tratamento de dependentes e educariam seus cidadãos sobre os malefícios dos entorpecentes.

Outro dado importante a favor da tese é a observação do que foi feito em países que adotaram ou não essa política. Na Holanda, apenas 5% dos habitantes fazem uso da substância, menos da metade verificada na Suíça, Itália e Espanha. Nos Estados Unidos, a forte repressão policial não impede que o país continue em primeiro no ranking de maior consumidor mundial de drogas.
Com essa posição, Fernando Henrique Cardoso e sua comissão se juntam a outros nomes que há mais tempo proclamam o mesmo mantra, casos de Fernando Gabeira, José Padilha, Fernando Meirelles, Ney Matogrosso, Soninha Francine, Marcelo D2 e Roberto Frejat, que defende que “em toda a história o homem sempre fez uso de substâncias que lhe permitiriam alcançar novos estados de consciência. A proibição não põe fim a isso e é preciso discutir o assunto.”

De fato, ele tem razão. Em toda a história e até hoje. Mesmo os tidos como campeões de saúde, os esportistas, têm dado uma derrapada na pista ao som de Reggae e mister Freud. Que o diga o olímpico Michael Phelps e o beatificado Maradona.
O idealismo ainda é a maneira mais burra de se pensar, portanto não se trata disto, e sim de uma análise crítica dos fatos, da história e de seus resultados, que têm sido colocados na conta da Praça do Papa. Não é uma visão determinista e tragicômica como a da série do Fantástico.
É provável que ainda assim se ouça os gritos dos que te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, pois assim se ganha mais dinheiro, mas é difícil crer que continuaremos fechando olhos e caixões enquanto o rap nos ensina a viver.

Texto originalmente publicado no portal “O Outro”, da PUC Minas.

Raphael Vidigal

terça-feira, 7 de dezembro de 2010


Já está nas lojas o CD e DVD Tributo a Cazuza - ao vivo na praia de Copacabana, com preço que varia entre R$27, 90 e R$29, 99.
O lançamento é o registro do show realizado ano passado, onde Cazuza ressuscita aos 50 bem vividos anos.
Vários tributos têm pontuado a carreira do cantor, e um dos diferenciais deste é justamente o fato de ter sido realizado na praia, dos locais preferidos e mais freqüentados por Cazuza.
Infelizmente nomes de peso e que fizeram parte ativamente da vida pessoal e criativa do poeta ficaram de fora, cedendo o lugar para Preta Gil, Rodrigo Santos, Gabriel Thomaz e Liah.



Bebel Gilberto, Marina Lima, Simone e Adriana Calcanhotto com certeza dariam maior credibilidade a um espetáculo que se propôs a homenageá-lo
O agora VJ da MTV, Lobão, também não estava lá, ele que só para começar foi amigo íntimo e parceiro em composições como Mal Nenhum, Azul e Amarelo, entre outras, além de ser o criador (juntamente com Bernardo Vilhena) de Vida Louca Vida, imortalizada na voz de Cazuza.
Outro esquecido foi Léo Jaime (que atualmente embala Maior Abandonado na novela das 7), responsável por apresentar Cazuza ao Barão Vermelho no início da carreira.
Já Frejat não pôde comparecer por motivo de agenda e teve sua ausência sentida.



Falando dos presentes, Ângela Rô Rô, para quem foi composta Malandragem, sucesso na voz de Cássia Eller, e parceira de Cazuza em Cobaias de Deus, participou pela primeira vez de um tributo ao amigo, e como de costume demonstrou toda sua visceralidade e energia em cima do palco, transmitidas através de sua voz rouca e sua performance debochada, traços marcantes de sua personalidade.
Ney Matogrosso, Caetano Veloso e Sandra de Sá fizeram o que deles já se esperava e formam, juntamente com Rô Rô, o ponto alto do DVD.
Arnaldo Brandão foi quem mais ousou, ao interpretar a lado C, Jovem, rock adolescente de Cazuza gravado por Arnaldo na época do Hanói-Hanói.
Os pecados do DVD estão em contar com convidados pouco conhecidos do poeta, demonstrando falta de critério, e em deixar de fora de sua seleção final Minha Flor, Meu Bebê, interpretada lindamente por Caetano Veloso na ocasião da festa.



O ponto positivo, além dos nomes já citados, é o Making Off que traz os artistas dando depoimentos a respeito do exagerado, Arnaldo Brandão sentencia: “ele era muito preciso quando queria ser cruel”.
Aos 50 anos, nem tão cruel nem tão preciso, um misto entre Ângela Rô Rô e Preta Gil, Ney Matogrosso e Liah.

Segue abaixo a lista de músicas do CD e DVD.

DVD:

1. Por que a gente é assim? - Ney Matogrosso
2. Pro dia nascer feliz - Ney Matogrosso
3. Vem comigo - Zélia Duncan
4. O tempo não pára - Zélia Duncan/part esp.; Arnaldo Brandão
5. Maior abandonado - Caetano Veloso
6. Ideologia - Paulo Ricardo
7. Ponto fraco - Paulo Ricardo
8. Brasil - Gabriel O Pensador/part. esp.; George Israel
9. Preciso dizer que te amo - Sandra de Sá
10. Blues da piedade - Sandra de Sá
11. Vida louca vida - Leoni
12. Mal nenhum - Leoni
13. O nosso amor a gente inventa - Preta Gil
14. Todo o amor que houver nessa vida - Angela Ro Ro
15. Malandragem - Angela Ro Ro
16. Solidão que nada - George Israel
17. Codinome Beija-flor - Rodrigo Santos
18. Jovem - Arnaldo Brandão
19. Beth Balanço - Gabriel Thomaz/Liah/Rodrigo Santos
20. Exagerado - Paulo Ricardo/Preta Gil /Leoni

CD:

1. Por Que a Gente é Assim? - Ney Matogrosso
2. Pro Dia Nascer Feliz - Ney Matogrosso
3. Vem Comigo - Zélia Duncan
4. O Tempo Não Pára - Zélia Duncan
5. Maior Abandonado - Caetano Veloso
6. Ideologia - Paulo Ricardo
7. Brasil - Gabriel o Pensador
8. Preciso Dizer Que Te Amo - Sandra de Sá
9. Vida Louca Vida - Leoni
10. O Nosso Amor a Gente Inventa - Preta Gil
11. Malandragem - Angela Ro Ro
12. Codinome Beija-Flor - Rodrigo Santos
13. Beth Balanço - Gabriel Thomaz/Liah/Rodrigo Santos
14. Exagerado - Paulo Ricardo/Preta Gil/Leoni



Raphael Vidigal

Texto escrito em 2009.

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