
Não espere arroubos sonoros. Zélia Duncan canta meiga, delicada, suave, suas composições novas. Isso é o que prepara o disco. Diante da platéia a contenção das interpretações se revela desafiadora e fugaz, com leve sorriso de coragem sorrateira.
A presença de Zélia no palco é resguardada de beleza, pelo vestido de Ronaldo Fraga (o coração do artista segundo a cantora), o cenário de Analu Prestes, pinturas abstratas refletidas pelas cores de uma iluminação climática, e a simpatia da protagonista, acompanhada de perto por Ézio Filho (direção musical e contrabaixo), Webster Santos (violão, bandolim e guitarra), Jadna Zimmerman (bateria, percussão e flauta) e Leo Brandão (teclados e acordeom).
À vontade desta, dissolve-se o desdém “pelo sabor do gesto”, título do álbum lançado em 2009 que alicerça show apresentado no último dia 10 de julho no Palácio das Artes, e que rende belo número onde a cantora posiciona-se com violão ao colo e interpretação intimista.
Ao abrir a apresentação com “Boas Razões”, versão de música do artista francês Alex Beaupain, Zélia assinala a que veio, embora ainda distante fisicamente do público, já esboça o vigor e a vontade com que irá conduzir a noite. A participação de Fernanda Takai nessa canção no disco é substituída pelos vocais do guitarrista da banda. Na sequência, emenda-se a solenidade a Rita Lee, de quem Zélia é eterna devota, com a pop roqueira “Ambição”.
Mas o circo aconchegante começa a pegar fogo a partir de “Intimidade”, música de Zélia e Christiaan Oyens que lembra os primórdios do Barão Vermelho (da época de Cazuza & Roberto Frejat), um bluesy cadenciado com letra ácida e humor farpado. A cantora esparsa em rigidez malemolente os gestos necessários ao destinatário da mensagem.
Aliás, um dos pontos altos do espetáculo é a condução sonora de Zélia Duncan, que se distingue por todo o corpo com intervenções precisas de interação bem humorada e suposição ligeira de pernas e braços, que logo se recolhem ao lugar de origem.
Na super-tocada “Tudo sobre você”, a nitidez dos versos se estende ao belo arranjo, inventivo e dinâmico, onde os instrumentos retomam lembranças de festas de aniversário infantis, artimanhas de John Ulhoa, co-autor da música, produtor do álbum e segundo Zélia Duncan, maior responsável pela existência do tudo em cena, ao respondê-la em e-mail sobre o projeto: ‘xá com nóis’, brincadeira diversas vezes direcionada à platéia.
A “Felicidade” de Luiz Tatit, embandeirada pelo autor paulista como o novo mal do século em lugar da depressão, escancara tom debochado sugerido pelo sobe e desce de sobrancelhas da cantora. O que lhe é complementado pelo sorriso de lado e os questionamentos sóbrios, quase falados: “Não sei por que tô tão feliz, preciso refletir um pouco e sair do barato.” 
Nada mais lhe escapa, os espaços vazios preenchidos de felicidade argumentam sem precaução nenhuma a letra propositadamente rimada de Zeca Baleiro, ao denominar símbolos de desejos amorosos da geração descartável: do “tesouro dos czares” ao “céu de celulares”, esta uma imagem perfeita ao romantismo ajambrado.
“Se eu fosse um blues, te mandava embora, se eu fosse um samba, esperava a aurora”, refina melodia e letra em parceria de Dante Ozzetti, com construção incomum de sentidos determinados pela emoção da música: do choro à valsa, da fuga de Sebastian Bach à Nona Sinfonia de Beethoven, reproduzida alusivamente à citação do verso.
O fraseado reto de “Duas Namoradas” de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, serve-se no samba deslocado de Zélia Duncan, garantindo a hibridez proposta: “Tenho duas namoradas, a música e a poesia, que ocupam minhas noites, que acabam com meus dias”. Também o “Cedotardar” de Moacyr Albuquerque e Tom Zé alcança sublime vôo na voz bem acolchoada e no arranjo dramático, com progressão paulatina ao intencional clímax em bolero: “no mais horroroso castigo....te sigo!”. A poesia é preservada em sua integridade.
“Borboleta”, gerida em comunhão por Marcelo Jeneci, Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e Zélia é ligeira e pop, e justifica-se pelo complemento da cantora: ‘um bando de marmanjo fazendo música de criança’. Um dos grandes momentos acontece à explanação em língua de sinais de “Todos os Verbos”, dedicada à fã semi-auditiva que buscou Zélia. Na procura de se abrir a esse universo tão sonoro quanto, a artista emociona em singeleza e doçura.
Na interpretação do “Tom do Amor”, nascida da descoberta do ‘diálogo de uma mãe ensinando as coisas importantes da vida à filha’, tudo em torno aconchega sutilezas, levezas, descompromissos e descontrações. Zélia flutua jardins de cores amenas, que não chegam a ser infantis, nem convidam à melancolia. É um contato que se interrompe, e o intervalo entre o espesso gesso e a liquidez da tinta é que moldura o quadro particular da cantora. Gotas que pingam devolvendo gestos, canções, palavras, afetos esquecidos em ambiente que se tornou cheio e duro. A composição é dividida com Paulinho Moska.
Sem esconder as ironias, Zélia canta uma desconhecida de Roberto Carlos, “I Love You”, e outra dedicada aos corações esperançosos, “Por isso corro demais”. Já no final, “Flores”, de Fred Martins e Marcelo Diniz combina poesia e energia na medida incerta pretendida: “Flores para quê? Flores para quando tu chegares, flores para quando tu chorares, uma dinâmica botânica de cores.” E o visual recebe mesmo duas flores artesanais.
O bis recheado de sucessos, “Catedral”, versão para música de Tanita Tikaram, e “Alma”, de Pepeu Gomes e Arnaldo Antunes, ganha coro ‘afinado’ da platéia, segundo a própria cantora e motivação elevada, fechando em altos tons as sonoridades decifradas em luzidias miniaturas.
Zélia não está se poupando, não deixa de ser enfática, destemida, apenas descobriu outra maneira de encarar a vida: sorrindo ao invés de gritando. Não escondida, mas aparecendo para quem quer ouvi-la. Não há nesse gesto a passividade, mas o saboreio de uma comida muito mais palatável ao devaneio de nuvens que tempestades. 
Raphael Vidigal Aroeira
Publicado no Jornal "Hoje em Dia" em 12/07/2011.

O mote é samba. Mas o sotaque é de Calcanhotto. Em álbum recheado de dedicatórias, Adriana não presta homenagem. Isso porque recusa a nostalgia para apresentar salutares desvios nos quais ambienta suas composições, com coloquial destreza para o inusitado.
Um dos que recebe menção honrosa na contracapa do disco é Jards Macalé, outro iconoclasta da canção brasileira. Aliado a ele vem Lupicínio Rodrigues, chamado tão intimamente de “lupi” que merece registro a maneira descompromissada com que Adriana se enverga do “micróbio do samba” dito pelo inventor da dor-de-cotovelo para dar nome à 12ª obra de sua carreira fonográfica (exceção à coletânea “Essencial” lançada em 2010).
Acompanhada em todas as faixas por Alberto Continentino no contrabaixo e Domenico Lancellotti na bateria e percussão (por vezes invertendo a ordem – ou seja – percussiva bateria e batida percussivista), Adriana começa sua saga rumo ao ritmo surpreendendo, como lhe é de seu fetiche nada usual em tempos demasiado óbvios.
Quem procura o tal micróbio do samba precisará de refinada lupa para encontrá-lo. Sim, pois os instrumentos presentes no álbum são tão inesperados quanto usar uma lupa para encontrar micróbio. E soam, além de criativos, agradáveis, dispensando a invencionice barata de grupos indie saídos em última fornada. A se notar o fato de que o som base é comandado por instrumentos elétricos tão rechaçados em ‘tempos idos’ (diria Cartola), sob a pretensão de defesa das raízes analógicas aqui instauradas pela miséria do povo.
Não se exclui o novo para abrigar o antigo. A riqueza com que Adriana desperta os olhares, ouvidos e gestos de sua matéria-prima é notável. Adriana lida poesia. Retira de cada sonoridade e palavra tudo o que podem oferecer em largueza e amplitude. Os sentidos deitam-se abertos ao deleite individual. Na primeira faixa, “eu vivo a sorrir” (assim grafadas minúsculas todas as palavras do disco), há exemplos que se cruzam soltos, envoltos pela atmosfera típica do samba (fadado fado; acaso caso). O que passará desapercebido por aqueles comprometidos com as verdades estáticas de uma vida mais maleável do que se lhes apresenta. Sem fazer pouco caso, Adriana e um de seus comparsas riem ao final.
“aquele plano para me esquecer”, brinca com contrastes, novamente: seu plano para me esquecer, esqueça, vaticina. E comporta a beleza rítmica do samba, sob os toques de um piano velejado aos dedos irreverentes de Calcanhotto. O clima revanchista e rancoroso, presente na terceira faixa, enclausura com propriedade a guitarra vertiginosa tocada por Adriana. “pode se remoer”, expõe no título do que se trata. E ainda remodela palavras, mantendo a sonoridade e o sentido primordial, como no caso de ajuizar/ajoelhar substituídas uma pela outra em versos, de resto, idênticos.
“mais perfumado”, oferecida à Thaís Gulin, enaltece o amor incondicional que se sujeita a provações inaceitáveis para muitos. O homem que trai é temática comum no mundo do samba, a mulher que mais do que desconfia, sabe, é mérito da lavra de Adriana. A música conta ainda com a “luxuosa”, como destacada pela própria cantora no encarte, participação de Davi Moraes e sua viola morna, que inaugura o sentir buliçoso do álbum.
“beijo sem”, já lançada com sucesso por Marisa Monte, e oferecida para ela mesma, põe à prova o canto narrativo e lento de Calcanhotto, como a sombrear palavras e requerer sons. É também faixa mais expansiva e menos interiorizada que as anteriores, abrilhantando o mosaico (como a obra de Leonílson – “Puros e duros – Ouro de artista – Ilusões”).
“já reparô?” permanece no tom da mulher que se coloca em primeiro plano, e ao invés de lamentar, se vangloria e provoca: a sua nova namorada, querida, pode ser linda e safa, (...) porte de gazela, olho de leoa, ser muito versada e hábil com a língua, do tipo que domina idiomas, mas ela não samba...”. E frases de conotação determinista: “o amor é o hiperquântico, e eu devo lhe fazer falta numa dada hora”. A ironia se estabelece, sem fazer concessões. Rodrigo Amarante pontilha generosamente solos de guitarra.
Outra canção com título questionador “vai saber?”, lançada e oferecida para Mart’nália, marca o ponto do disco em que o samba se esgueira com mais focinho tradicional. A se reparar o fato de Adriana tocar cuíca nessa faixa e caixa de fósforos na seguinte, “vem ver”. Numa, o rejeitado que sente raiva e ameaça o troco, noutra, o mesmo personagem, com a promessa de fazer de tudo para reconquistar o tal amor (perdido ou encontrado).
O chorístico cavaquinho de Davi Moraes, introduz a seara carnavalesca iniciada com “tão chic”, onde a sutil pronúncia de Adriana tem papel fundamental para a percepção da diferença em versos “si” e “se”. Nessa música, um exercício de cinismo com a eternidade, do “amor eterno até a quarta-feira”, sinalizando tom debochado com relação à festa. Na seguinte, “deixa, gueixa”, uma alegria exaltante em ritmo de bandeja de chá tocada por Adriana, em alusão ao objeto referido na letra. Com sagacidade, a faixa ganha coro de bloco e torna mais intimista a música, que vai do Ocidente ao Leme, dedicada para Hiromi.
No fim, “você disse não lembrar” é sensível composição bem aclimatada ao tempero tradicional do samba, enriquecida por toques de faca e prato de Moreno Veloso, que traça um caso de amor quase desfeito. “tá na minha hora” sinaliza o intento da autora dos versos, como síntese do trabalho feito: “despi as suas fantasias devagarinho, da sua onipotência tratei com jeitinho, e das chegadas de madrugada, no sapatinho, agora tá na minha hora...”.
E despede-se, erguendo a bandeira de sua Estação Primeira de Mangueira, inspiração para as cores que se destacam na belíssima capa do disco, via arte de Luiz Zerbini, Fernanda Villa-Lobos e Caroline Bittencourt. A “moça dos agudos de cristal”, que despertou o fascínio do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu em 1989, segue sua sina quebradiça de pérolas e diamantes. Com caminho livre para os rubis, em meio às pedras. 
Raphael Vidigal

Há um fato não desvelado sobre recente obra do autor mineiro Luiz Ruffato. Na verdade, dentre muitos, há um que me salta especificamente aos olhos, aparentemente de relevância questionável. É possível que isso nem tenha passado pela cabeça do autor, mas o seu protagonista guarda outra interseção com a realidade além de também ter nascido em Cataguases. Sérgio de Souza Sampaio, o Serginho, é homônimo de primeiro e último nomes do compositor esquecido que estourou com o hit “Eu quero é botar meu bloco na rua”, e depois desapareceu no olhar obscurecido do grande público.
Sérgio Sampaio, o fictício, empresta seu pequeno relato através da pena ágil de Ruffato para dar vazão a uma realidade ampla e aberta que se revela pelas pequenas considerações feitas através de discurso casual, ingênuo, quase discreto, misturando assuntos a outros num ritmo acelerado, mas de natureza contida, se limitando aparentemente a abarcar a pequena condição de um jovem desempregado que vê a vida desmoronar por problemas comuns do cotidiano, nada de grandes questões reflexivas sobre a filosofia humana, “apenas” a perda do emprego e a “idéia fraca” da companheira que ele engravidou por “acaso”.
Aliás, um dos trunfos da narrativa de Luiz Ruffato é apresentar questões complexas sob a cortina da casualidade e do emaranhado de circunstâncias em que as pessoas se envolvem sem tomarem consciência da proporção exata que ela adquire. O compositor Sérgio Sampaio também usava dessa artimanha, misturando sua narrativa pessoal com fatos cosmopolitas e provincianos, como, por exemplar, ao declarar o sentimento que o envolveu, na música Muito Além do Jardim: “nosso amor morreu tão cedo...durou o tempo exato da agonia do Tancredo.” Se valendo da realidade explícita e escancarada e de idéias que estão além do campo da objetividade, muito além do jardim.
Pois a história que Ruffato propõe vai muito além da distância entre Cataguases e Lisboa que Serginho tem que percorrer para fazer seu caminho. Na verdade essa travessia dá-se através de linguagem e do emprego de observações peculiares sobre um universo íntimo que depõe contra questões universalistas. Todo o tempo a grande preocupação de Serginho é se inserir em uma sociedade onde ele desempenhe papel de destaque, sendo reconhecido por seus feitos ou ainda pela simples aparência deles. E aí está a grande chave do mistério: a “aparenciabilidade.”
Para Cleópatra não é necessário ser honesta, basta parecer honesta, diria o outro filósofo desconstrutor para construir essa nova visão que detém a pós-modernidade, cheia de desreferencializações por conta de suas múltiplas referências, instaurada num ciclo de consumo que subjetiva a ela própria e oferece a total liberdade para ser incoerente. A fragmentação dessa nova era cheia de pólos para se agarrar e camadas flexíveis, aparece representada na narrativa de Ruffato que se descola sem considerações solenes de uma visita a uma prostituta apaixonante ao histórico de guerra do velho que recebe visitas pornográficas, sendo o cunho sexual irrelevante no link. À essa maneira, ele aborda questões relativas à nossa sociedade: a competição mercadológica e principalmente o que as pessoas precisam fazer para supostamente “vencer” nesse meio, o preconceito com o diferente que acaba se equiparando à massa para sobreviver, as dificuldades de relacionamento e os desvios emocionais que se incutem nesse processo. 
Outra celebridade desconhecida e exótica da cidade de Cataguases é a cantora masculinizada e perseguida por seu estereótipo híbrido pela ditadura, Maria Alcina. Ainda na década de 60, ela se notabilizou pelas largas fantasias e pelo linguajar de superfície chulo, mas de essencialidade rica, ao resgatar do folclore nordestino toda a malícia reprimida do povo brasileiro naqueles tempos, com verdadeiras pérolas do quilate de “Bacurinha” e “Prenda o Tadeu”. É por essas fantasias, palavras grifadas que podem arrefecer os sentidos como sendo de significação baixa que Serginho vai aos poucos se enraizando na pátria que nunca foi dele, substituindo os cacoetes antes presentes em sua interiorana e pacata Cataguases pela agressividade com a qual tem que se confrontar em Lisboa. Ali é o estrangeiro que precisa se inteirar do código para ser aceito. Algumas dificuldades vividas fazem parte, de certo modo, da própria biografia do autor, obrigado a dormir e tomar banho em rodoviária, ser pipoqueiro, balconista e torneiro mecânico, dentre outras profissões, antes de se consolidar como jornalista e escritor de sucesso no Brasil e na Europa (traduzido para várias línguas: italiano, francês, espanhol).
Logo na abertura do livro, Ruffato faz uma brincadeira que “parece” séria. Inventa a naturalidade da história ao prescrever que aquilo é relato “minimamente editado” ocorrido em tais lugares, a tal dia e hora. Tudo se passa de forçar a imaginação a ser oferecida “à vontade”, escancarada em sua falsificação quando comparada com uma pretensa veracidade que é propositalmente exagerada. Trata-se de questionar o jogo da representação e apontar essa crise oriunda do esgotamento dos temas. O fim da originalidade e da criação. Ou seja, não há como representar uma realidade que a princípio se propõe sem amarras e totalmente solta em sua pós-modernidade, instaurada, entre outras coisas, pelo fim dos meta-discursos coercitivos e assegurados.
Outro artista pródigo em exaltar essa crise foi o surrealista e catalão Miró, vizinho da Lisboa onde desembarca o personagem de Ruffato, que através de suas curvas coloridas precedidas por telas quase totalmente brancas ou queimadas, entremeava vários discursos dissonantes e amplificados, que poderiam formar afinal, uma unidade indivisível, mas ainda assim, fragmentada. O autor também entremeia várias histórias com cortes bruscos, dando o paladar da oralidade na fala.
Encomendado pela Companhia das Letras para fazer parte da coleção Amores Expressos, que pretendia relatar o amor itinerante através das narrativas de diferentes autores por várias cidades, Ruffato solicita ao leitor a percepção de um amor implícito que se esquiva do contato, que é o não direto, o não alcançado, não terminado, e, portanto, aberto a possibilidades. O fim não conclusivo que define uma única decisão do protagonista, a de voltar ao vício que ele abandonara no inicio do livro, deixa no ar uma fumaça reflexiva sobre os caminhos da linguagem e a sua impregnação quase que obsoleta ao imagético, lembrando um pouco uma música do antecessor bossa-novista Lúcio Alves, também de Cataguases, que cantava: “de conversa em conversa você vai arranjando um meio de brigar, de palavra em palavra você está querendo é nos separar”.
As palavras de Luiz Ruffato têm mais o sabor da interrupção fragmentada que alcança o olhar do outro lado, que da continuação que se conforma e se consome em sua esfera limitadora. A Cataguases de Serginho não é a destinação à Lisboa. É a imagética necessidade desanuviada da pós-modernidade.
Raphael Vidigal Aroeira
Se mil vezes me perguntarem quem sou, direi: Adélia Prado
Se mil e uma, direi: Rubem Alves 
Trôpego em seus passinhos diminutos dos quais debochará mais tarde, vem com mansidão. Desmancha a fragilidade a impressionante voz que encerra quaisquer perspectivas de “últimas apresentações”. Lúdico, lúcido do porte de seus 77 anos ele alquimera (misto de alquimia e quimera) as imagens de velho triste e velho criança, que conclui caixa de ferramentas e brinquedos e com Deus explica as erotizações da fruta pudica maçã e a fruta obscena caqui.
Choro dos corações entrecortados em Hiroshima, onde foram plantados os caquizeiros a vida triunfa sobre a morte, e vítimas fatais se chocaram com a capacidade destrutiva humana: “O mundo é maravilhoso, mas os homens são terríveis. Os homens e as mulheres.” Não discrimina. A vida triunfa sobre a morte. Vaticina.
“Aforismo é um raio que cai na Terra e destrói uma rocha. Nietzsche é o homem transbordante. Os marxistas são uns chatos. Marx é maravilhoso de ler sob culinária. O dono da panela. Os risos da platéia. Movimentos coordenados pela fala; alegria sem objeto, sem prazer. O prazer precisa do objeto. A alegria da lembrança.” É uma graça prestar jornalismo com tantas aspas; nesse caso.
A ironia é tão doce e fere com o riso aberto. Fará pior a seu inimigo tratando-o com cordialidade, sintetiza certo Oscar Wilde pouco ensinado em escolas de ensino básico. E o basicismo que ataca as escolas é ironicamente exposto pelo conhecimento de passo trôpego: “Academia de Letras é uma bobagem. Meu amigo Moacyr Scliar, do qual muito sinto saudade, fez a maior bobagem em aceitá-la. Mas suas histórias são uma delícia. Tanto quanto as de outro escritor genioso do qual o autor dessas linhas não se lembra o nome e que se sentiu honradíssimo em ter sua obra servida de argumento para o vestibular. Acontece que ao tentar responder as questões feitas pelos acadêmicos sobre seu texto e publicadas num jornal, errou todas!!!”
Como é possível destruir uma poesia seguindo os rigores técnicos exigidos pelos avaliadores. Discursa todas as linhas de Cecília Meireles sem nada saber sobre elas. Recusa a musicalidade e se perde todo o contato com a camada espessa da veleidade. Velas de Cecília Meireles. Para entendê-las, é preciso cantar. O canto que está entre as linhas, “nos interstícios”. Ele brinca as palavras. Falta ensinar sobre os livros o prazer de ler um livro. Um livro não serve para nada. Uma música não serve para nada. Uma poesia não serve para nada. Falta ensinar a brincar com elas. Prazerosamente.
“Não se pode ler Mario Quintana de cara amarrada. Um brincalhão. A poesia de Mario Quintana é toda infantil.”
Bandeiras e lutas erguidas com o braço operado e fremes inquebrantáveis de sagacidade: propõe o fim do vestibular; fim do academicismo pernóstico; e expõe idéias em pouco mais de uma hora diante de absortos admiradores que o engrandecem ainda mais com perguntas pouco inspiradas das quais ele é capaz de tirar mel de abelha sem raiva: a resposta para um texto não é uma análise, é outro texto.
Diante de Rubem Alves, Palácio das Artes.
Raphael Vidigal


As águas de Itapemirim deram ao mundo um Rei e um fora da lei. Um médico e um monstro. Cachoeiro, no masculino, maturou a seleção natural entre aquele que seria quase unânime em agasalhar corações maternos e o que exacerbava feminilidade na postura prática. Pernas cruzadas, cabelos longos e negros como lágrimas ou labirintos, boca embicada à espera de um batom corrosivo vermelho que pintava seu nome nos encartes dos discos: Sérgio Sampaio. O outro prescinde apresentação, Roberto Carlos.
Sob a égide do Espírito Santo, ambos nasceram regidos por Marte, o elemento fogo e o signo de Áries, nas datas de abril cujo simbólico animal é o carneiro. Mas o misticismo esteve longe de enclausurá-los, embora presente, e se fizeram lobo em pele de variados gêneros. O rock foi a matiz inicial. Enquanto Roberto empunhou sua guitarra italiana, carros explosivos e mil e uma namoradas, Sérgio foi pela trilha provocadora a que um amigo baiano o apresentou, com sessões das dez num cinema espinafrado. Raul Seixas conduziu Sampaio. O irmão de sobrenome, Erasmo, foi o grande comparsa do amigo Carlos.
Sérgio caminhou deslocado. O assombro a que persegue o monstro e avilta a própria integridade crava marcas de lucidez plebéia no rosto irônico e fundo. A poesia intrincada e cáustica de vidros mastigados (Kafka e Augusto dos Anjos; homenagem louca a Torquato Neto) expele sangue limão, misturando o extremo coloquial palpável à sórdida opacidade. A musicalidade de violão inquieto e agudo preserva os estouros do fox, a morosidade dolente de uma harmonia retalhada por raízes perenes, a espontaneidade do samba patriarcal e a gravidade do samba-canção, a quem deve os louros para Orlando Silva, Sílvio Caldas e Nelson Gonçalves.
Roberto caminhou ao centro. As luzes medicinais acompanham os trejeitos de galã do Rei que sabe impressionar, conquistar e cortejar seu povo. Com um sorriso esperto que mais tarde se dará maduro, poesia dita no pé do ouvido e sofisticação de arranjos. É o médico que amacia as dificuldades e apresenta a cura para os problemas ocasionais e preocupantes. Para tudo há uma dose de sua canção. Ele está no comando aclamado. 
O desajeito existencial do monstro é asfaltado pela colocação pertinente do médico. O Rei dá as respostas. O fora da lei pergunta. A pergunta é incômoda e a resposta, em geral, conforta. Um cristaliza; o outro, turva. Sérgio era fã de Roberto Carlos. A criatura que busca abalar as estruturas do criador, impassível em sua afirmação. E o homem que busca ferir Deus, referência explícita a quem reverencia no questionamento. “O Caetano rebolava e fazia de tudo pra chocar João Gilberto, então é isso, a gente tem que chocar os ídolos da gente.” Cazuza
E por essa linha, Sérgio se embicou (tal qual um Garrincha habilidoso) por esses cantos da vida e lá ficou. Pagou preço caro enquanto Roberto permaneceu eterno, jovial e gratuito. O médico e criador para quem a criatura dedicou um velho blues pedindo para cantar sua música, pois não sabia fazer romances (“E até o nosso calhambeque não te reconhece mais, eu trouxe um novo blues com um cheiro de uns dez anos atrás, e penso ouvir você cantar”). Um monstro de aparência feia, desidratado e infiel, que se orgulha de ser mentiroso, e que arrastou sua garganta cortada nas calçadas sujas de um mundo independente, inesperado e inóspito. Um mundo próprio alheio a determinadas leis de Estado que o Rei promulgou, com sua voz cirúrgica capaz de emocionar os corações menos abaláveis e empolgar os nervos mais sóbrios.
“Sei como dói meu amor de poeta”, agoniza a Real beleza de Sérgio Sampaio. “Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer”. As curvas da estrada de Santos que propagaram Roberto Carlos. “Que eu estou no paradeiro dessa gente. Quem morreu? Quem teve medo? Quem ficou?”, duvida Sérgio Sampaio. “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, você tem que aprender a ser gente, e o seu orgulho não vale nada”. Garante Roberto.
Ávido por melancolia suspira Sampaio: “Eu guardo seus dias de chuva dentro de mim”, relegado a um posto por inadequação, muito inédito e contemporâneo. “Não adianta, nem tentar, me esquecer...” orgulha-se Roberto Carlos, e toma posse assumindo o romantismo e a Jovem Guarda, repetido e consagrado. O criador teve trajetória larga, bem planejada. A criatura esbandalhou-se perdida sempre à procura. Veio sofrida, efêmera e duradoura pela beleza que guardam os instantes de iluminação. Não se pode afirmar que se foi. Ainda habita, e lateja, mesmo assim, esporádica. O Rei recolhe flores no jardim das vaidades.

Eu quero é botar meu bloco na rua (marcha-rancho, 1972) – Sérgio Sampaio
Com sua loucura lúcida, como disse Lygia Fagundes Telles de Caio Fernando Abreu, Sérgio Sampaio criou uma das mais emblemáticas canções de carnaval de todos os tempos. Em meio à ditadura militar que se instaurara no Brasil, o compositor capixaba, tido por muitos como maldito, dá uma aura lamentosa à festa popular mais famosa do país, ao entoar versos confessionais em tom melancólico, emendando logo na sequência o refrão esperançoso que garantiu o sucesso da canção: “Eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, botar pra gemer...”. Além do conteúdo sexual abordado no refrão há também referências ao uso de drogas, tudo feito com muito deboche, misturando tristeza e alegria e dando seu aval definitivo à festa máxima brasileira: o carnaval.
Raphael Vidigal

Quando Elis Regina visitou Rita Lee na cadeia, grávida e presa por porte de maconha, o gênero considerado movimento por alguns, tropicalista, moveu acorde importante na história da música brasileira.
Anos antes, no meio da década de 60, Elis havia liderado passeata da classe dominante artística (laureada MPB pela crítica especializada) contra a guitarra elétrica. Um dos convidados mais ilustres do protesto era o ainda nem tão doce bárbaro, Gilberto Gil.
O músico baiano tocaria uma semana depois ao lado daqueles dois meninos e uma menina que representavam para Elis a degradação da cultura nacional em decorrência da invasão estrangeira (decantada por Noel Rosa em 1933, “o cinema falado é o grande culpado da transformação...”).
Elis Regina não era doce de coco qual Jacob do Bandolim, outro que combatia a iconoclastia simbolizada para ele no “delicado” de Waldir Azevedo, mas virou “doce de pimenta” de Rita Lee, personagem que rege o fio condutor do documentário afetivo dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, fã do inventor de uma das mais expressivas bandas do rock brasileiro: Os Mutantes.
LÓKI, a vida de Arnaldo Baptista, inicia-se pintando uma tela branca, ausência permanente que aos poucos ganha contornos coloridos. Rita está sempre presente, embora não preste depoimento. É ela a menina de olhos claros que vira o outro amor, “a transmutação do amor”, nas palavras do homenageado.
A relação dos sentimentos se destaca na condução da cinebiografia de Arnaldo Baptista, imprimindo marca de que toda sua obra está espessamente ligada à conflituosa travessia humana que ele percorre. O artista é sua arte. É essa a constatação do diretor, e, portanto, aspectos teóricos e técnicos são menos importantes de serem exprimidos nessa primeira produção cinematográfica do “Canal Brasil”. Tudo aparece nítido na conturbada vida pessoal de Arnaldo, tentativa de suicídio e internações.
As experiências do amor e das drogas acabam gerando uma espécie de loucura entendida pelas vozes uníssonas que proclamam Arnaldo como um gênio incompreendido em sua dimensão, ao extrapolar as barreiras da percepção territorial e “lúcida”. Questiona seu irmão e ex-companheiro de banda, Sérgio Dias: “Quem é louco? A gente ou Van Gogh?”. E o que parece é que Arnaldo sempre ultrapassa limites, primeiro ao incorporar a essência tropicalista (acusada por Jards Macalé de ter sido cooptada pela indústria e assim perdido o sentido) e dar cara ao rock brasileiro, depois ao ser reconhecido fora de seu país (por nomes como Kurt Cobain e Sean Lennon), e tangendo todo esse comportamento agressivo, ao absorver uma atmosfera essencialmente sensível e fragilizada diante dos acontecimentos humanos. 
Explica Zélia Duncan, escolhida para substituir Rita Lee na formação contemporânea dos Mutantes (no coração de Arnaldo, a escolhida é outra): “não adianta ele ser reconhecido se ele não sentir esse reconhecimento”. E é sentir que Arnaldo parece buscar o tempo todo, seja via antropofagia (segundo Lobão “nome pernóstico para reproduzir a Semana de Arte Moderna de 22”), ou via regurgitofagia (expressão cunhada por Michel Melamed), ao expelir as entranhas sentimentais que lhe causam aflição.
As performances de Arnaldo, que sempre foram fruto de uma mente questionadora e um coração sem resposta, guiadas por espírito irônico e literalmente alucinado (o ácido é debatido sem definições morais), são esteticamente produzidas na tela em cor amena, bastante percorrida por romances menos sofisticados. O modelo adotado conserva uma materialidade menos complexa de ser digerida, com poucos contornos que não beirem de fato uma linha. 
O que não faz jus ao histórico estético de Arnaldo Baptista, que ao incorporar novos elementos a um rock tipicamente nacional, explorou com extravagância as mais diversas cores que nossa aquarela nem tão brasileira assim podia despejar. O quadro que ele pinta durante o documentário é prova disso. A prova mais cabal de todas é sua música, que ao longo da peça embala as mais exóticas faces de Arnaldo (mímico, retórico, melancólico, infantil), nem sempre obedecendo a aspectos cronológicos, mas pontuando a vida de um artista resgatado de sua profundeza em corpo e alma. É a balada do louco: Arnaldo Baptista ressurge, e pode voar.
Raphael Vidigal

A boca seca e os velhos olhos vermelhos voltaram de vez?
Não, porque sempre estiveram aí. São mais antigos que a ressaca de Capitu e a discussão já solucionada por Clarice Lispector sobre quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha.
As drogas quase sempre fizeram parte da história do homem. A origem da maconha data de 2723 a.C., segundo registros da Farmacopéia Chinesa, tendo chegado na Europa por volta do século XVIII, assim como no Brasil, de acordo com documentos referentes à época das Capitanias Hereditárias.Da mesma forma, as drogas também fizeram parte da vida e obra de artistas importantes e por vezes fundamentais na história da arte.
Difícil imaginar o comedor de batatas Vincent van Gogh sem seu absinto amarelo. Difícil imaginar o infernal Rimbaud sem a fada verde. Os ácidos André Breton, Miró e Salvador Dalí sem a persistente memória do haxixe. E o que seria do sangue de poeta de Jean Cocteau sem o diabólico menino ópio? O uivo da Geração Beat colocaria o pé na estrada sem o almoço nu de LSD? Jimi Hendrix e Jim Morrison abririam as portas da percepção de William Blake? Janis Joplin se tornaria uma heroína? Charles Baudelaire sentiria o perfume das flores do mal? Hunter Thompson conheceria o Dr. Gonzo sem piteiras e mescalinas? Truman Capote sem seu bonequinho de luxo uísque teria música para camaleões? Nelson Rodrigues escreveria sobre a vida como ela é sem tabaco? Os hippies superariam a repressão sexual descrita por Freud sem seus alucinógenos? E os jovens brasileiros em tempos de AI5? Se expressariam?
Jamais saberemos. O que sabemos é que se fez arte através de ou também pelo uso dessas substâncias. Sabemos que o reggae sem a erva natural e Bob Marley encontrou seu Ponto de Equilíbrio em Natiruts e Manitu (um mundo que só quer te ver sorrir). E que Lucy continua no céu com seus diamantes e John Lennon.
Saindo do campo das artes, e retornando ao pai da psicanálise, haveria divã sem cocaína? E os sonhos? Alguém os interpretaria? E da revista Veja sem a luta pela vida de Fábio Assunção, o que seria? A polícia do Rio de Janeiro (para pegar o maior expoente do movimento) sem o tráfico de drogas, pra onde iria?
A questão é complexa, e é por isso que uma visão simplista e ingênua como a que por aí circula nas bocas molhadas de alguns cidadãos brasileiros deve ser rebatida, e mesmo que eles não queiram, debatida.
É incrível como que sob a voga da grife Tropa de Elite as pessoas aderem à visão de uma polícia que é instruída a pensar que o consumidor final da droga é o grande financiador do crime.
É tão simples dizer que aniquilados os consumidores acaba-se o tráfico como pensar que sem carros nas ruas não haveria mais poluição nem acidentes de trânsito. Os fatores são múltiplos e fazem parte de uma rede que envolve tantos outros elementos.
Mas o pior desse tipo de pensamento é o fascismo que apóia o saco plástico e vê graça no cabo de vassoura, é uma sociedade cronicamente inviável e conservadora que grita: “joga bomba na favela!”, e se estende : “nos playboys também!”
Pois bem, a exemplo dos heróis da Marvel, Capitão Nascimento, El Justiciero (tcha tcha tcha, diriam os Mutantes) das telonas vem ao mundo para cumprir sina messiânica e fazer nascer de novo os “cidadão meliante”. Ele é um homem que honra seu sobrenome e torna-se El gran ídolo da garotada, fazendo discípulos violentos e intolerantes. Pessoas que clamam por paz debaixo do céu e da terra.
É acreditando nessa didática da colher de pau, mais sofisticadamente, justiça com as próprias mãos, que perpetua-se uma guerra cadavérica centrada numa moeda única de dois lados, o de quem reprime e o de quem vende a droga. Como Romeu e Julieta, um não vive sem o outro, e assassinam-se diariamente sem perceber tratar-se de uma ação mútua.
Exatamente por essa questão, que a discussão acerca de todas as drogas, mas centrada principalmente na maconha, deixou de ser sobre os efeitos que acomete o indivíduo que a consome e passou a ser sobre o efeito que consome a sociedade que a comete, já que é crime.
Para alguns o Brasil ainda é o país do Ame-o ou deixe-o. Assim sendo, sob essa visão criminosa que o problema ganhou, os legalistas de plantão repreendem o uso da maconha com a Constituição Federal nas mãos, agindo de maneira tão veemente como quando dirigem seus carros logo após saborearem aquele delicioso bombom de licor holandês.
O problema maior é o glamour e a conveniência. Pois pecados menos originais como adquirir ingresso na mão de cambista, usar falsa carteira de estudante e comprar filmes e CDs piratas não são vistos da mesma maneira pelos mesmos olhos não vermelhos. Trata-se de um ambiente muito pop para a marginalizada maconha. A ilegalidade garantiu-lhe status de subversiva, atrelando seu uso à violência, ao contrário do que acontece com os brega-chiques cigarro e cerveja. Júlio Bressane, Cleópatra e Nietzsche não entram em Hollywood, a não ser sob vaias ou então chorando.
Pois Veja só você que a edição da revista que traz um anti-comunista Barack Obama na capa, informa que a proposta do falecido Nobel de Economia Milton Friedman, defendida na década de 70, volta a ganhar força na ONU perante o inquestionável fracasso do “mundo livre de drogas” proposto em 1998, a legalização.
A proibição em algumas cidades da Marcha da Maconha não impediu que Fernando Henrique Cardoso, e César Gaviria, ex-presidente da Colômbia, fossem taxativos ao afirmar que as políticas de combate ao tráfico de drogas na América Latina não funcionaram.
Outra alegação em favor da descriminalização da maconha proposta pela comissão encabeçada pelos dois e composta por outros ex-presidentes da região, é a de que o usuário de maconha deve ser tratado como doente, não como criminoso, pois trata-se de uma questão pertencente à esfera da saúde pública e que migrou para a violência urbana. Mas não é só isso, eles admitem os danos que podem ser causados pelo uso, e inferem que é necessário concomitantemente com a descriminalização, um conjunto de políticas de prevenção, como o atendimento assistencial com o intuito de reduzir os riscos de overdose, AIDS e outras doenças.
No cinema, quando se decide a classificação etária de um filme divide-se os critérios para encaixá-lo naquela categoria, como sexo, drogas e violência. Drogas e violência possuem uma categoria individual cada. No Brasil a proibição as coloca como farinha do mesmo saco.
Seguindo o raciocino de FHC na revista Veja, dessa maneira os governos poderiam taxar e regulamentar o comércio, tirando-o das mãos dos traficantes e diminuído a violência associada à disputa por mercados consumidores. Com esse dinheiro, financiariam programas de tratamento de dependentes e educariam seus cidadãos sobre os malefícios dos entorpecentes.
Outro dado importante a favor da tese é a observação do que foi feito em países que adotaram ou não essa política. Na Holanda, apenas 5% dos habitantes fazem uso da substância, menos da metade verificada na Suíça, Itália e Espanha. Nos Estados Unidos, a forte repressão policial não impede que o país continue em primeiro no ranking de maior consumidor mundial de drogas.
Com essa posição, Fernando Henrique Cardoso e sua comissão se juntam a outros nomes que há mais tempo proclamam o mesmo mantra, casos de Fernando Gabeira, José Padilha, Fernando Meirelles, Ney Matogrosso, Soninha Francine, Marcelo D2 e Roberto Frejat, que defende que “em toda a história o homem sempre fez uso de substâncias que lhe permitiriam alcançar novos estados de consciência. A proibição não põe fim a isso e é preciso discutir o assunto.”
De fato, ele tem razão. Em toda a história e até hoje. Mesmo os tidos como campeões de saúde, os esportistas, têm dado uma derrapada na pista ao som de Reggae e mister Freud. Que o diga o olímpico Michael Phelps e o beatificado Maradona.
O idealismo ainda é a maneira mais burra de se pensar, portanto não se trata disto, e sim de uma análise crítica dos fatos, da história e de seus resultados, que têm sido colocados na conta da Praça do Papa. Não é uma visão determinista e tragicômica como a da série do Fantástico.
É provável que ainda assim se ouça os gritos dos que te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, pois assim se ganha mais dinheiro, mas é difícil crer que continuaremos fechando olhos e caixões enquanto o rap nos ensina a viver.
Texto originalmente publicado no portal “O Outro”, da PUC Minas.
Raphael Vidigal

Já está nas lojas o CD e DVD Tributo a Cazuza - ao vivo na praia de Copacabana, com preço que varia entre R$27, 90 e R$29, 99.
O lançamento é o registro do show realizado ano passado, onde Cazuza ressuscita aos 50 bem vividos anos.
Vários tributos têm pontuado a carreira do cantor, e um dos diferenciais deste é justamente o fato de ter sido realizado na praia, dos locais preferidos e mais freqüentados por Cazuza.
Infelizmente nomes de peso e que fizeram parte ativamente da vida pessoal e criativa do poeta ficaram de fora, cedendo o lugar para Preta Gil, Rodrigo Santos, Gabriel Thomaz e Liah.
Bebel Gilberto, Marina Lima, Simone e Adriana Calcanhotto com certeza dariam maior credibilidade a um espetáculo que se propôs a homenageá-lo
O agora VJ da MTV, Lobão, também não estava lá, ele que só para começar foi amigo íntimo e parceiro em composições como Mal Nenhum, Azul e Amarelo, entre outras, além de ser o criador (juntamente com Bernardo Vilhena) de Vida Louca Vida, imortalizada na voz de Cazuza.
Outro esquecido foi Léo Jaime (que atualmente embala Maior Abandonado na novela das 7), responsável por apresentar Cazuza ao Barão Vermelho no início da carreira.
Já Frejat não pôde comparecer por motivo de agenda e teve sua ausência sentida. 
Falando dos presentes, Ângela Rô Rô, para quem foi composta Malandragem, sucesso na voz de Cássia Eller, e parceira de Cazuza em Cobaias de Deus, participou pela primeira vez de um tributo ao amigo, e como de costume demonstrou toda sua visceralidade e energia em cima do palco, transmitidas através de sua voz rouca e sua performance debochada, traços marcantes de sua personalidade.
Ney Matogrosso, Caetano Veloso e Sandra de Sá fizeram o que deles já se esperava e formam, juntamente com Rô Rô, o ponto alto do DVD.
Arnaldo Brandão foi quem mais ousou, ao interpretar a lado C, Jovem, rock adolescente de Cazuza gravado por Arnaldo na época do Hanói-Hanói.
Os pecados do DVD estão em contar com convidados pouco conhecidos do poeta, demonstrando falta de critério, e em deixar de fora de sua seleção final Minha Flor, Meu Bebê, interpretada lindamente por Caetano Veloso na ocasião da festa.
O ponto positivo, além dos nomes já citados, é o Making Off que traz os artistas dando depoimentos a respeito do exagerado, Arnaldo Brandão sentencia: “ele era muito preciso quando queria ser cruel”.
Aos 50 anos, nem tão cruel nem tão preciso, um misto entre Ângela Rô Rô e Preta Gil, Ney Matogrosso e Liah.
Segue abaixo a lista de músicas do CD e DVD.
DVD:
1. Por que a gente é assim? - Ney Matogrosso
2. Pro dia nascer feliz - Ney Matogrosso
3. Vem comigo - Zélia Duncan
4. O tempo não pára - Zélia Duncan/part esp.; Arnaldo Brandão
5. Maior abandonado - Caetano Veloso
6. Ideologia - Paulo Ricardo
7. Ponto fraco - Paulo Ricardo
8. Brasil - Gabriel O Pensador/part. esp.; George Israel
9. Preciso dizer que te amo - Sandra de Sá
10. Blues da piedade - Sandra de Sá
11. Vida louca vida - Leoni
12. Mal nenhum - Leoni
13. O nosso amor a gente inventa - Preta Gil
14. Todo o amor que houver nessa vida - Angela Ro Ro
15. Malandragem - Angela Ro Ro
16. Solidão que nada - George Israel
17. Codinome Beija-flor - Rodrigo Santos
18. Jovem - Arnaldo Brandão
19. Beth Balanço - Gabriel Thomaz/Liah/Rodrigo Santos
20. Exagerado - Paulo Ricardo/Preta Gil /Leoni
CD:
1. Por Que a Gente é Assim? - Ney Matogrosso
2. Pro Dia Nascer Feliz - Ney Matogrosso
3. Vem Comigo - Zélia Duncan
4. O Tempo Não Pára - Zélia Duncan
5. Maior Abandonado - Caetano Veloso
6. Ideologia - Paulo Ricardo
7. Brasil - Gabriel o Pensador
8. Preciso Dizer Que Te Amo - Sandra de Sá
9. Vida Louca Vida - Leoni
10. O Nosso Amor a Gente Inventa - Preta Gil
11. Malandragem - Angela Ro Ro
12. Codinome Beija-Flor - Rodrigo Santos
13. Beth Balanço - Gabriel Thomaz/Liah/Rodrigo Santos
14. Exagerado - Paulo Ricardo/Preta Gil/Leoni
Raphael Vidigal
Texto escrito em 2009.

O mundo de Almodóvar sempre esteve impregnado de cores, deboche e dramalhões mexicanos. Pelo menos o mundo cinematográfico, contrário à infância pobre que o diretor teve. Embora afirme que suas obras são sempre parte de sua vida, Almodóvar tem por mérito exagerar nos tons, e fazer disso seu grande diferencial. A arte maior de Almodóvar é exagerar com sutileza. E esse lhe é um talento inquestionável. Ao tratar de personagens complexos e quase sempre opostos, entrando em conflitos psicológicos e até mesmo físicos, Almodóvar tem por hábito utilizar cenários abundantes, que nos comovem através da associação de símbolos. Sim, tão comoventes quanto os personagens criados por Almodóvar são os cenários que ele utiliza, regados a seu tradicional vermelho sangue que também pode ser utilizado nos cabelos, nas roupas e no batom da personagem que dá nome à sua película de 1993, Kika.
Já na primeira cena do filme Almodóvar nos oferece uma cama onde deita-se uma modelo simulando um orgasmo. E na verdade, todos estão em pé: a modelo, a cama e o fotógrafo que a pede para relaxar enquanto a retrata para uma propaganda de lingerie. Tudo é falso, tudo é fantasia, e diferentemente do comercial que vai ao ar, no filme o espectador sabe que está sendo enganado. 
O fotógrafo em questão será personagem importante no filme, pois servirá de base para dar vazão a uma gama de comportamentos: ele simboliza o voyeur solitário e introspectivo, apaixonado pela mãe e desejando a morte do padrasto. Além disso, é submisso à mulher, aceitando a traição com complacência. Nada mal para um Édipo dos dias atuais de Almodóvar.
Desde o início do filme, o renomado diretor espanhol confunde o espectador quanto ao olhar que assiste à cena. Nunca se tem certeza se é simplesmente o olhar de Almodóvar, do espectador ou dos voyeurs que cercam os acontecimentos, pois eles estão em toda parte, e o fotógrafo Ramón, interpretado por Álex Casanovas, não é o único do filme, Andrea Caracortada também tem o costume de espionar as pessoas, só que de um jeito um pouco menos discreto, um tanto quanto espalhafatoso, a julgar por seu modelito andrógino com desenhos de seios aparecendo. Sem se esquecer da câmera que ela carrega na cabeça. Se Ramón tem por hábito fotografar cenas de sexo, a predileção de Andrea é por crimes sanguinolentos. Ela representa a tão falada sociedade do espetáculo, apresentando um programa de viés sensacionalista que tem como patrocinador uma marca de leite. A personagem é interpreta pela atriz espanhola Victoria Abril, e suas axilas não depiladas aliadas ao corte que ela empunha com orgulho na cara dão a medida exata do charme da apresentadora e psicóloga aposentada. 
Aliás, outra característica não menos presente nos filmes de Almodóvar é o deboche com que ele trata as ocupações humanas. Se a desvairada Andrea Caracortada é uma ex-psicóloga, o retrato dos policias não deixa de ser menos cômico. Quando eles recebem por telefone a notícia de que Kika está sendo estuprada, segue-se um diálogo memorável, em que um dos policias compara seu queixo ao de Kirk Douglas. Não menos interessante é o visual a la Wolverine de seu comparsa. Os dois agem segundo o estereótipo dos policiais bonachões que se garantem em sua autoridade, e não dão a mínima para a denúncia feita. Quando eles resolvem agir, entediados com o ambiente da delegacia e dispostos a darem um passeio, é que tem início uma das melhores cenas do filme.
Tudo começa no entanto, um pouco antes, quando a empregada lésbica da casa de Kika, Juana, interpretada por Rossy de Palma, musa de Almodóvar que já a comparou às pinturas de Picasso (e à qual refere-se à beleza em cena que Kika lhe diz: “em tempos de rostos estranhos como os de agora bem que poderia ser modelo”), abre a porta da residência para seu irmão, o ator pornô e foragido da justiça Paul Bazzo, interpretado por Santiago Lajusticia, e ele resolve não estuprar Kika. Ao contrário do que é levado a pensar o espectador quando a câmera o filma de baixo para cima por trás e vai subindo lentamente até parar em suas calças, enquanto se exibe de frente para uma Kika adormecida, ele não está mostrando-lhe o membro sexual, mas sim os músculos do tórax e braços, e isso só fica evidente quando a câmera sobe mais um pouco e o filma por inteiro, ainda de costas. 
Nesse momento, ele aparentemente desiste de estuprar Kika e se retira do quarto, mas ao tentar inutilmente acordar sua irmã que o pediu que ele desse-lhe um soco na cara para não descobrirem que ela o deixou entrar e eles eram irmãos, ele acaba demovendo-se da aparente transformação e volta ao quarto para estuprar Kika. Excitando-a com um pedaço de mexerica, Paul rapidamente começa a estuprá-la ainda dormindo. Nesse instante, a câmera traz uma imagem que pode ser da janela, de algum observador não presente na cena e a certa distância. Podemos ser nós, os espectadores, ou o voyeur que insistentemente bisbilhota todas as cenas. Ou ainda, talvez sejam todos a mesma coisa.
Ao mesmo tempo em que nos mostra Paul estuprando Kika em cortes fechados, onde somente os dois são enquadrados e o diálogo entre eles é o essencial da cena, Almodóvar também nos dá a oportunidade de enxergar o ato em cenas abertas, focalizando por exemplo o altar construído por Ramón em cima da cama, com imagens de santas e mulheres nuas, em um mosaico que ilumina o interior do personagem.
Isso nos dá uma prova de que a grande conquista de Almodóvar não é realizar uma cena de estupro, mas sim tratá-la de acordo com suas características cinematográficas e sua sensibilidade. O descaso com que a personagem Kika encara seu algoz depois de vários minutos em que está sendo estuprada tem um quê de ironia, ousadia e cinismo do irriquieto diretor. Cada personagem da trama carrega consigo características diversas, que a exemplo do que o próprio Almodóvar nos diz, podem ser atribuídas à sua própria personalidade, pois se o cinema é parte da sua vida, temos um filme vivo, com contornos de dramalhão mexicano.
Em uma tomada que deveria ser dramática, trágica, violenta, Almodóvar nos brinda com seu bom humor para lidar com o lado mais sórdido e tosco do ser humano. O estuprador é tosco, Kika tem seus momentos em que é tosca, e a abordagem dos policias é tão tosca quanto rude e inesperada. E por isso mesmo, hilariante. Sem se importar com as pessoas que possam estar dentro da casa eles chegam atirando na porta, arrombam-na e então caminham pela residência com as armas em punho. Outro olhar bastante presente no filme é o do reflexo do espelho. Almodóvar o utiliza diversas vezes para dar luz às cenas, dando-nos indícios de que talvez estejamos vendo tudo pelo lado oposto, ao contrário.
Na cena que antecede a entrada dos policias na casa, Kika e Juana dialogam tranquilamente enquanto Paul estupra a protagonista. A câmera nos mostra o rosto completo de Kika, enquanto que o de Juana não é totalmente filmado. Enquanto Kika tem uma expressão de ansiedade, não sabemos com que cara Juana dialoga com a patroa, sabendo que tudo aquilo só acontece por culpa de uma atitude tomada por ela. A vergonha pode ser o motivo. E essa é a única dica que temos do sentimento da personagem, pois sua voz continua pausada e serena. 
Como são todos voyeurs, ou seja, estão todos observando, os cortes de Almodóvar são sempre para mostrar outros olhares. Quando os policias caminham em direção ao quarto de Kika, quem os observa ao fundo é Juana, quando eles entram no quarto alguém os observa de longe, ou atrás da janela ou da tela do cinema, e quando Paul é finalmente tirado de cima da estuprada, o olhar que nos é oferecido é o de Andrea Caracortada, mesmo que seja ela a enquadrada na cena, o essencial não é a sua imagem, mas o seu olhar, para onde ela olha.
Apesar de ser uma cena de relativo suspense sobre o que os policias irão encontrar quando entrarem no quarto tudo acontece de maneira muito rápida, no mesmo ritmo frenético com que Paul tenta ejacular, entrecortando alguns momentos de relativa pausa, onde Kika faz observações à respeito de higiene pessoal e o tal voyeur da janela observa a cena de aceleração, mas estática. Todos os elementos que compõe a cena nos são oferecidos com cores, velocidade, e a atuação dos personagens é simplesmente patética, com destaque para o momento em que os policiais puxam o estuprador pelas calças arriadas até que ele literalmente se desgrude de seu objeto de prazer. %5B1%5D.jpg)
Outro elemento utilizado para cortar as cenas são objetos que descem pelas janelas do prédio segurados por cordas, e embaçam um pouco o visual das cenas, nos deixando ver somente parte do que está acontecendo, pois há sempre algo que nos esconde a realidade completa.
O ápice de toda essa cena acontece quando Paul Bazzo foge até a janela e se masturba até que finalmente ejacule, e a gota de seu momento de prazer cai justamente no rosto partido da repórter Andrea Caracortada, em um dos raros momentos em que ela parece mais humana e sorri como uma criança. No amor verdadeiro sêmen é lagrima. 
Raphael Vidigal

Ismael Silva é considerado por Chico Buarque seu “verdadeiro pai musical”. O sambista nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, no dia 14 de setembro de 1905, foi um dos fundadores da primeira escola de samba, no final da década de 20, a qual deu o nome de Deixa Falar. Tido por Vinicius de Moraes como um dos três maiores sambistas de todos os tempos, Ismael tem em seu currículo o nome de músicos famosos como parceiros, destacando-se entre todos eles Noel Rosa e Lamartine Babo. Descoberto por Francisco Alves em 1927, o inventor do samba carioca como se conhece hoje é o autor de várias canções célebres do nosso cancioneiro, entre elas “Se você jurar”, em parceria com Nilton Bastos, “Adeus”, parceria com Noel Rosa e “Antonico”, um de seus últimos sucessos. Depois de ser regravado por artistas como Beth Carvalho, Clara Nunes e Cristina Buarque nos últimos anos de sua vida, Ismael Silva morreu no dia 14 de março de 1978, aos 72 anos, e para sempre será lembrado como um dos grandes nomes da música brasileira. Se estivesse vivo, ele completaria 105 anos nesse mês de setembro.
Antonico
Composto em 1950 por Ismael Silva, o samba “Antonico” foi registrado por ele próprio em disco em 1973, fruto do espetáculo “Se você jurar”, dirigido por Ricardo Cravo Albin. Em 1967, Elza Soares já o havia gravado no disco “Elza, Miltinho e Samba”, em que cantava algumas músicas ao lado do cantor Miltinho. Apesar das constantes negativas de Ismael, especula-se que a música seja autobiográfica, devido às dificuldades financeiras que o compositor passou após sair da prisão. Em uma carta escrita por Pixinguinha em 1939, endereçada ao musicólogo Mozart de Araújo, ele dizia: “Espero que o que puder fazer pelo Ismael seja como se fosse por mim.” Quase os mesmos versos presentes no samba “Antonico”. 
Se você jurar
O samba “Se você jurar”, composto em 1931, tornou-se uma das músicas mais conhecidas do repertório de Ismael Silva. Grande sucesso no carnaval daquele ano, cantada pela dupla Mário Reis e Francisco Alves, “Se você jurar” recebeu diversas regravações, entre elas as de Beth Carvalho, João Bosco e Casuarina. Além disso, alimentou-se por muito tempo uma polêmica sobre a autoria da canção. Orestes Barbosa e Mário Reis afirmavam que ela era apenas de Nilton Bastos, Francisco Alves dizia que era dele e de Nilton, e Ismael Silva garantia que a compusera ao lado de Nilton.
Raphael Vidigal
Lido na Rádio Itatiaia dia 26/09/2010.
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Na primeira quarta-feira do mês de agosto desse ano, a cantora Leny Eversong, dona de uma das mais potentes vozes que o Brasil já teve, teria completado 90 anos de idade.
Leny, que nasceu Hilda Campos Soares da Silva, começou a carreira aos 12 anos, cantando no programa “A Hora Infantil”, na Rádio Clube de Santos, cidade onde nasceu. Demonstrando desde o início seu enorme talento para interpretar foxes estrangeiros, Leny logo passou a ser chamada de Hildinha, a Princesa do Fox. Pouco tempo depois, ela deixaria para trás o nome em português, mas não abandonaria as canções estrangeiras, passando a se especializar também em outros ritmos, como jazz, bolero e blues. Ela, que não falava nada em inglês, anotava na mão a pronúncia das palavras e era proibida por seu empresário de dar entrevistas fora do Brasil, arriscando no máximo alguns “all right´s” e “ok´s”. -image013%5B1%5D.jpg)
A partir da metade da década de 50, Leny passou a receber convites frequentes para se apresentar anualmente em Las Vegas e fazer shows pela Europa, já que a essa altura também cantava (e muito bem) em outras línguas, como italiano, espanhol e francês, e tudo isso sem saber falar o idioma.
Apesar da enorme fama da qual já desfrutava no exterior, Leny nunca obteve no Brasil o reconhecimento que lhe era devido, e gravou poucas vezes em português, numa dessas tendo feito registros históricos de músicas que seriam sucesso mais tarde na voz de Elis Regina, a exemplo de “Aleluia”, de Edu Lobo e Ruy Guerra, e “Arrastão”, a música que lançou Elis no Festival da Canção, também de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. 
No início da década de 70, quando seu marido desapareceu supostamente seqüestrado por traficantes que o confundiram com seu filho (mais tarde ele seria preso acusado de envolvimento com drogas), Leny não quis saber mais de música e se refugiou por um tempo na casa do amigo e cantor Agnaldo Rayol. Conhecida por sua figura gorda e loura e sua voz que alcançava tons extremos, Leny ficou deprimida, teve diabetes e raramente apareceu em alguns programas televisivos. Nunca mais gravou um disco. Aquela figura alegre, expansiva, que falava alto e comia muito já não existia mais.
No dia 29 de abril de 1984, pouco tempo depois de ter as duas pernas amputadas, Leny morreu aos 63 anos, e sua voz desapareceu definitivamente.
Entre seus maiores sucessos estão Jezebel, gravada por ela em 1956 e Summertime e St Louis Blues, sucessos em inglês gravados em 1957. Além disso, foi responsável por lançar o cantor Juca Chaves, ao gravar uma música sua quando ele tinha então 16 anos, e ajudou Cauby Peixoto no início da carreira.
Hoje em dia, ainda é possível encontrar seus discos sendo vendidos pela internet por preços que variam entre R$80 e R$150, e em 2007, o jornalista e produtor musical Rodrigo Faour, lançou uma coletânea de Leny Eversong através da série Grandes Vozes, editada pela Som Livre.
Leny Eversong tornou-se artigo de colecionador, raridade, mas sua voz poderosa, afinada e límpida é a prova maior do valor de uma cantora de inquestionável qualidade. 
(Matéria publicada no jornal "Hoje em Dia")
Raphael Vidigal
A história de como Hélio Costa tornou-se o candidato do PT em Minas 
A quatro meses das convenções partidárias, o PT vive em Minas Gerais situação parecida com a que seu rival histórico, o PSDB, vive no plano nacional. E o problema começou justamente quando integrantes do partido resolveram deixar a rivalidade de lado e uniram-se ao PSDB para levantar a bandeira branca de Márcio Lacerda, mais ou menos como se Cruzeiro e Atlético se unissem para torcer juntos pelo América.
Agora, a estrela vermelha está mais rachada do que nunca em Minas, e a briga é para ver quem consegue juntar mais pedaços, pois se uma estrela tem cinco pontas e a disputa está dividida em dois dentro do partido, a matemática prova que alguém há de sair ganhando. 
Patrus Ananias, ex-prefeito de Belo Horizonte e atual Ministro de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, conta com o apoio dos petistas mais fiéis, aqueles que não se uniram ao PSDB nas últimas eleições, e do PC do B, que teve sua candidata Jô Moraes apoiada por ele, enquanto Fernando Pimentel, que também já foi prefeito da cidade, tenta unir à sua candidatura a nova safra, os mais flexíveis, aqueles que aceitam trocar beijos com os tucanos em prol de uma governabilidade mais ampla.
Esse imbróglio dentro do partido do presidente Lula faz com que Antônio Anastasia, o candidato da continuidade, do governador Aécio, enfim, do PSDB, saia na frente da disputa por já estar há mais tempo nas ruas fazendo campanha, da mesma forma com que Dilma cresce devido à indefinição entre Serra e Aécio no plano nacional.
No entanto, o problema maior do PT não é seu inimigo, nem ele próprio, é justamente seu melhor amigo, aquele em quem ele confia, a quem confessa seus pecados. O PMDB, principal aliado da base governista, exige que o candidato ao governo do Estado seja Hélio Costa, Ministro de Comunicações e ex-senador por Minas, e que sua candidatura seja apoiada também pelo Partido dos Trabalhadores, que não deveria lançar nenhum outro candidato além de Hélio. 
Confusão armada, pois o PT, com dois interessados na disputa e com boas possibilidades de vencerem as eleições (Patrus e Pimentel já foram prefeitos de Belo Horizonte), já acha complicado convencer um dos dois a desistir, como foi complicado para o PSDB convencer Aécio, ainda mais os dois.
Para completar, o vice-presidente da República, José Alencar, integrante do nanico partido PRB, também tem seu nome aventado como um dos possíveis candidatos caso restabeleça sua saúde, o que poderia unir PT, PMDB e PC do B num só pacote, mas nada garantido, pois há quem diga que diferentemente de Pimentel e Patrus, Hélio Costa não desiste.
E aí fica complicado para o presidente Lula não apoiar seu vice, não apoiar seu Ministro ou mesmo os integrantes do seu partido, que embora bem menor que o Lulismo, ainda existe, e se chama PT, mais do que nunca perdido, precisando se decidir em um dilema parecido com o da Escolha de Sofia, e nesse clima cinematográfico só há uma certeza: Alguém tem que ceder...resta saber quem. Daqui a pouco “O Cara” pede a seu amigo Obama que convoque Diane Keaton e Jack Nicholson para lhe ajudar. Não vai ser fácil costurar essa estrela. 
Raphael Vidigal