segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


Para Caio Fernando Abreu, em uma noite de insônia.

Vivia na morte desde que matara seu último personagem em um acidente de carro.
Tinha os ombros largos, olhos amarelados e sorria de lado. Sempre sorria de lado, era um modo de parecer simpático sem ser chato. Aliás, tinha horror de ser chamado de chato, embora acontecesse com freqüência quando em uma mesa de bar com os amigos se recusava a tomar mais um chopp ou a cheirar cocaína no banheiro. Aí vinham os insultos: careta, mal-amado, chato. Era de fato mal-amado, isso sempre soubera. A mãe não lhe tinha muito agrado e preferia os outros irmãos, formados em engenharia e com esposas belas. Além disso, deram-lhe o que ela sempre sonhara: netos. Muitos netos. Praticamente um rebanho inteiro. Uma prole saída dum forno de lebres. A mãe ficava tão entusiasmada que parecia sonhar com os filhos fodendo suas mulheres e lhe garantindo mais netos. Como se fosse prova de virilidade, masculinidade, sucesso. E era. E ela sempre dizia. E por isso ás vezes fazia comentários maliciosos com relação à sexualidade dele. Desde cedo parecia desconfiar, perguntando porque não arranjava uma namorada se não era feio, e o chamava de mole, ás vezes fresco. O pai era um caso à parte, sempre indiferente e seco. Não parecia gostar mais dos outros dois. Mas também não gostava de ninguém. Para falar a verdade não se lembrava da última vez que conversara com ele. Talvez até estivesse morto e ele tivesse ido ao enterro. Não se lembrava nem da cara dele, lembrava-se apenas do cigarro aceso na ponta dos dedos amarelos. Dedos amarelados que eram a cor de seus olhos. Parecia ter sido a única coisa herdada de seu pai por ele. Talvez estivesse morto realmente e ele devesse ir buscar alguém relógio ou espelho. Quanto às namoradas nunca gostou de nenhuma delas, e por isso dava razão aos que reclamavam de sua empáfia, arrogância. Era realmente. Se achava muito superior aos homens sem inspiração e burros com quem convivia às vezes, quase sempre. E às mulheres também, tão convencidas e estúpidas. A última namorada tinha uma bela bunda, mas era chata e burra. Mais chata do que burra. Vivia perguntando as coisas e insistindo pra que ele fizesse coisas. Detestava pessoas que pediam, imploravam ou se revelavam muito. Era fechado, mas muito tranqüilo. Não se negava a um papo. Tinha que parecer simpático. Ás vezes pensava que convivia com as pessoas apenas para construir seus personagens, e ganhar dinheiro, e ser reconhecido. Escrevia para um jornal alguns contos. Contos absurdos que abalavam ás vezes sua reputação de careta. Talvez aquele fosse seu verdadeiro ser, o maluco, incestuoso, pornográfico, estuprador, egoísta. Não sabia porque as pessoas ainda liam aquilo. Seus personagens não tinham nada de simpáticos. Mas ele sempre dizia: “uma coisa é a obra, a outra é o construtor.” Acreditava que seus personagens eram pessoas que ele via, na rua, na zona, no escritório, no banheiro, no bar. Cheirando cocaína, falando de negócios, comendo putas, fumando em becos. Para ser escritor precisava viver como um junkie, ou talvez aquilo fosse apenas pretexto para justificar sua sede de vida sem se expor, sem chegar ao limite, parava antes do limite, na divisória entre as linhas escritas e a vida. Não vivia o que escrevia. Pelo menos até ali. Seu último personagem fora um assassino compulsivo que estuprava velhinhas e depois as comia ainda vivas. Talvez fosse uma metáfora do dia a dia, ou talvez uma obsessão mal resolvida por velhinhas. Cansara-se do personagem quando não havia mais graça nas velhinhas, já havia criado todas: caretas, caricatas, conservadoras, cristãs, liberais, lésbicas, hermafroditas, transexuais, putas, freiras e até cabritas. Então com o seu personagem saciado colocou-o dentro de um carro recheado de pedaços de velhas e o jogou de um precipício. E a partir dali morreu junto com ele. Não via mais graça em fazer essas metáforas da vida. Queria algo mais real, direto, sem deslizes. Queria algum personagem que o representasse. A sua vida. Mas era tão chato, tão careta. Então pensou logo em sua primeira característica: mal-amado. E que graça tinha? A mãe achava que ele era bicha, o pai ele não via e as namoradas não o interessavam depois da terceira comida. Isso não era motivo para um conto. Então começou a rememorar suas namoradas antigas. Lembrou-se da primeira, ainda na escolinha, quando andavam de mãos dadas e trocavam beijos estalinhos. Aquilo era divertido. O divertia. Depois passou para a segunda experiência, já na faculdade ficou com uma menina em uma festa da sala e experimentou sua primeira bocetinha. Na hora devia ter sido divertido, agora para falar a verdade não se lembrava bem, não conseguia puxar da memória nada: gosto, cheiro, grito. Da terceira tinha mais memória, uma garota alta, bonita, gostava de falar da lua e ouvir os pássaros, pensou que devia ser meio hippie. Depois disso passou um longo período sem ninguém e se lembrava sempre que nunca havia gostado de ninguém na vida. Nenhuma pessoa estava à sua altura, o fazia feliz. Ninguém o queria mas ele também já não queria ninguém. Talvez nunca tivesse querido. Até encontrar os seus personagens, que ele moldava da maneira exata que achava que devia ser. Da maneira exata que ele queria. Algumas vezes colocava os textos sobre a mesa e gozava sobre eles. Era ele comendo alguém de quem gostava. Gostava do estuprador de velhinhas, já estava mais calejado do que na época que inventara o primeiro: uma transexual lésbica que se arrependera da cirurgia de mudança de sexo e depois que transava com os homens os matava e congelava seus paus, para ficar se lembrando com carinho do que perdera. Mas depois de um tempo todos os enjoavam e ele acabava os assassinando. Era de fato mal-amado. Pela mãe, pelo pai, pelos irmãos e pelas namoradas. Todas pessoas tão inferiores a ele, como tinham a coragem de repudiá-lo? Já desistira de entender e também não importava, que morressem, ele iria buscar seus espelhos e relógios e ficaria tudo bem. Na verdade, achava até um charme em ser mal-amado, talvez fosse uma sina dos escritores, os bons escritores, não os medíocres, talvez alimentasse a sua arte e talvez a felicidade fosse realmente a pior coisa da vida para uma carreira bem sucedida. O que seria das celebridades se não fossem os grandes escândalos? E dos pintores sem as tragédias? E do cinema marginal, novo sem a violência? Nada, ele repetia para si. Niente. Pois para ele ser mal amado era vital para a construção de seus personagens, fotografava uma pessoa na rua e derrubava sobre ela toda a sua amargura na hora de colocá-la naquelas linhas. Tinha horror à bossa nova. Barquinho, violão, sol, mar e lua. Gostava de vexame. De ver as pessoas se acabarem por alguém que não as amava, que nunca as iria amar, que gostava e se divertia com aquilo, com aquele sofrimento inútil por elas, as engrandecia. Era mal-amado, mas tinha um amigo. O Carlos. Sujeito bom, bacana, respeitava os outros mesmo na frente deles. Ao contrário dele, que apesar do sorriso era extremamente desrespeitoso, cínico, e talvez por causa do sorriso as pessoas não percebiam. Era esse o segredo do sorriso, sempre de lado, nunca preciso, guardando no canto da boca aquela bala macia que atingia a pessoa no peito e ela não sentia. O Carlos era uma bicha, todos sabiam, e um dia o convidou para ir com ele a uma boate gay. Ele não queria, mas o Carlos disse que haveria uma garota, uma menina, talvez de uns 15 anos que entraria com carteira falsa, e se ele fosse esperto no fim da noite a comeria. A menina era sobrinha do Carlos, que sempre muito liberal desde cedo contou a ela as coisas da vida. Sua mãe morrera cedo atropelada pelo marido, que era seu padrasto. Seu pai mudara para São Paulo antes dela nascer e nunca quis conhecê-la. O Carlos cuidava dela, e a tratava como se fosse sua filha, mas com aquele jeito peculiar dele de se tratar uma filha. Na hora o Carlos disse, mas agora ele não sabia mais se ela tinha 16 ou 15, de qualquer forma era novinha, e segundo o Carlos, virgem. Ele topou ir até a boate, sua vida estava um tédio e talvez ele descobrisse algum personagem, talvez na menina. As luzes tornavam seus olhos amarelados vermelhos pretos cinzas. Já a menina não parecia ter 16 nem 15, talvez tivesse se confundido, há muito tempo não prestava muita atenção no que os outros diziam, preferia ficar atento a seus movimentos, seus tiques. Descobriu ao longo da vida que todo mundo tinha tiques, e o da menina era ficar todo o tempo ajeitando os seios, que mal cabiam em sua blusa decotada verde. Eles conversavam mas ele não ouvia, não por causa do barulho, mas porque haviam também outros tiques, além dos seios ela gostava também de mexer nos cabelos, que variavam de cor de acordo com as luzes que caíam sobre eles. Os viu azul, os viu vermelhos, laranjas e cinzas. Quando as luzes paravam eram cinzas. Talvez fosse pela fumaça ou talvez fossem realmente cinzas. Ela era simpática, tinha um sorriso totalmente aberto e também as narinas, que pareciam sugar do mundo todos os açúcares, todas as fumaças, todos os cheiros, todas as toxinas. Não sabia dizer se era feia ou bonita, tinha a cintura e as pernas bastante finas, e em um segundo o fez pensar que ela talvez fosse uma bailarina. Uma bailarina de instinto suicida que fazia perfumes com o esperma dos homens com quem ela fodia. Depois achou a idéia meio ridícula. E também não teria coragem de matá-la. Quem a mataria? Não se mata uma bailarina. Se mata a mãe, o pai, o irmão, um assassino de velhinhas, uma freira, o Papa, mas não uma bailarina. Aquilo começou a desinteressá-lo. Se ele não podia matá-la para que criar o personagem? Só se pode criar um personagem quando está em suas mãos a sua vida. E a vida daquela bailarina nunca estaria em suas mãos. Também não queria mais transar com ela, saiu dali e foi até o banheiro. Lá encontrou o de sempre, homens bêbados pelo chão debruçando-se sobre seus vômitos, alguns mijando e outros cheirando cocaína. De repente algum braço o abraçou por trás quando ele se preparava para desabotoar a calça e agarrou seu pau. Entrou em desespero, não sabia o que fazer, sentiu que seria como a transexual que criara e perderia seu membro, era uma profusão tão grande do seu medo que ele já não entendia, porque aquilo? Para que alguém iria querer castrá-lo? Então as mãos que o agarravam o viraram e de repente surgiu uma boca e uma língua que começou a beijá-lo e ele agora gostava, mas também não entendia. As mesmas mãos começaram a acariciá-lo e ele começou a fazer o mesmo e sentiu o peso daquelas costas imensas e aquele peito firme e aquelas pernas fortes e aquela bunda e aquela orelha e aquela boca e aqueles lábios e aqueles dedos e aqueles fios de cabelo e aquelas unhas e aqueles dentes e aquele bico do peito e aquela ponta da língua e aquele pau e aquele umbigo e aquelas bolas e aquele pé e aquela sola do pé e aquela palma da mão e aquele cu e aqueles olhos e aqueles cílios e aquela gengiva e aquele nariz e então saíram dali e foram para o apartamento dele. E não acenderam a luz e foram para a cama e ele deitou e o outro deitou por cima dele e ele sentiu. Sentiu como era bom sentir-se vulnerável. Sentiu-se á mercê do outro de alma e corpo. Totalmente penetrado, totalmente revelado. Seus ossos tremiam e sua carne estalava de suor e gozo. No dia seguinte não viu o outro. Fora embora sem deixar vestígio, nome ou endereço. Também não queria saber do outro. Sabia dele: era gay. E como de costume mal amado também. A revelação de sua sexualidade não o fez sentir-se querido pelo outro. Não o era. Também não o queria. O achara burro e chato. Mas servira para aquela noite. Continuava mal amado. Gay e mal amado. E pensava em sua mãe gozando de prazer vendo seus irmãos procriarem filhos. Era mais uma coisa que ele não a daria. Também não queria. Preferia ver a mãe morta a dar-lhe netos. Não queria vê-la sorrir, não queria vê-la feliz. Queria no máximo ir ao seu enterro, como não fizera com seu pai. Dessa vez ele faria. Queria também ver os irmãos morrerem. E todos os seus personagens. E a vida. Ele queria a morte da vida. Queria a morte reinando soberana sobre a Terra. Sem transexuais arrependidas, sem freiras assassinas, sem padres estuprando suas mulheres, sem água, sem comida, sem sexo, sem hipocrisia. Foi quando viu que tudo aquilo era ele. Todos os personagens eram ele. Liberal, careta, homem, mulher, bicha. Sagrado, religioso, covarde, assassino. Todos os personagens tinham um pouco dele. Gay, mal-amado e suicida. Sentiu-se feliz como nunca antes. Não precisava mais ser reconhecido. Reconhecera-se.

Raphael Vidigal

Pintura: "Wooman, 1951 - 2", de Willem de Kooning.

2 comentários:

Pedro Henrique Ramos Costa disse...

Muito bom! Claro que foi o primeiro que li né.

Engraçado como no início você só tem certeza dos fatos acerca da vida do protagonista, e a respeito de seus pensamentos impera uma dúvida: as frases que retomam passagens mais psicológicas são geralmente iniciadas com um "talvez...", uma incerteza. Como se fosse uma leitura sua a respeito da vida dele que não necessariamente fosse verdade.

Algumas partes são até excitantes (pasme), e no todo o conto tem um tom pesado, indigesto (termos chulos e outras passagens grotescas, geralmente associadas aos hábitos dos personagens assassinos, que mais tarde, descobrem-se serem carterísticas do próprio protagonista forçando-me a acreditar, dessa forma, que o protagonista está um pouco enojado de muita coisa - não sei o que).

Muito bom!

Alessandra Rezende disse...

Texto violento para um protagonista também violento. Q liguagem rude! Direta e sem sorrisos de meia boca!
ADOREIII

Muito bom como vai expondo o porque dele se identificar como mal amado, depois gay e depois suicida.
Adorei como fui levada pela história, personagens e as várias sensações que transmite.

As frase q mais gostei foram: "Era esse o segredo do sorriso, sempre de lado, nunca preciso, guardando no canto da boca aquela bala macia que atingia a pessoa no peito e ela não sentia".

Não se mata uma bailarina. Se mata a mãe, o pai, o irmão, um assassino de velhinhas, uma freira, o Papa, mas não uma bailarina.

Lembro de vc comentando essa última comigo.

Beijoss!

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